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quarta-feira, 8 de junho de 2011

Portugal 1 Noruega 0 - Em primeiro!

No Sábado passado, dia 4 de Junho de 2011, a Selecção Portuguesa de Futebol recebeu e venceu a sua congénere norueguesa por um golo sem resposta, no Estádio da Luz. O único tento do jogo foi marcado por Hélder Postiga. Com este resultado, a Turma das Quinas subiu ao topo da tabela classificativa do Grupo H da qualificação para o Campeonato Europeu de Futebol, a realizar-se dentro de um ano na Polónia e na Ucrânia.

Assisti ao desafio durante uma festa de anos. Já não via um jogo da Selecção acompanhada por tanta gente desde os jogos com a Coreia e o Brasil da fase de grupos do Mundial 2010. Pude, portanto, cantar o hino em voz alta, de braço dado com os outros presentes na festa, em vez de o sussurrar, como costumo fazer quando vejo os jogos em casa. Além de que existiram outros para além de mim mandando bocas de treinadores-de-sofá, que muito irritam os meus familiares quando as digo cá em casa.

O jogo não foi muito fácil para os portugueses. Os nossos lá iam fazendo pela vida, mas os noruegueses ainda nos pregaram uns quantos sustos. Houve alturas em que receei que o Eduardo fizesse uma asneira como a que fez em Oslo, em Setembro. Felizmente, tal não aconteceu. No entanto, o tão desejado primeiro golo tardava a surgir e já começávamos a ficar preocupados. Estávamos a ver o jogo com o som desligado e com o computador a passar músicas dos anos 80. A certa altura, mais ou menos a meio da primeira parte, passa uma música chamada "All I Need Is a Miracle" e comentámos que até se adequava ao que estava a acontecer.

E daí talvez não. Suponho que se tivéssemos perdido ou empatado não seria muito grave em termos do nosso apuramento, acho eu. Quer dizer... não sei. De qualquer forma, não deixaria de ser mau depois de todas as palavras de optimismo que foram ditas durante o estágio, de todos os apelos que foram feitos para que o público viesse assistir ao jogo, do que dissera àqueles noruegueses. Por isso, ao intervalo, resolvi ir buscar o meu boné e, durante o resto do jogo, segurei-o nas mãos, como um terço. Tinha feito isso aquando do jogo com a Dinamarca e dera bom resultado. Tal voltou a acontecer no Sábado. E quando o Hélder, um dos meus jogadores preferidos, marcou, gritámos "GOLO!" em coro - outra vantagem de assistir a jogos na companhia de várias pessoas.

Mais tarde, Postiga afirmou que o Estádio da Luz é, para ele, um talismã, depois de confrontado com o facto de várias vezes ter marcado pela Equipa de Todos Nós naquela arena. Mas há quem diga que o verdadeiro talismã é o próprio Hélder, que já anda na Selecção há uns bons anos e possui vários tentos na bagagem. Com este, atingiu o top 10 dos marcadores da Equipa das Quinas. Sei que ele tem tido desempenhos flutuantes mas custa-me a compreender que ele tenha sido excluído da Selecção durante dois anos. Com mais este golo, voltou a provar que essa ausência prolongada foi asneira. Em suma: o Hélder é o maior!

Depois deste golo, pensei que o gelo tinha sido quebrado e que entrariam mais umas bolas na baliza norueguesa. Tal não aconteceu mas mantive essa esperança até ao apito final.

Não foi um jogo brilhante. Não houve domínio português indiscutível. Não houve propriamente ass-kicking. Não vou mentir, esperava um pouco mais de jogadores como Fábio Coentrão - pensava que ele quereria provar que tinha qualidade para ir para o Real Madrid, tal como tanto deseja - e, claro, Cristiano Ronaldo. Parece mesmo que ele foi vaiado - não sei, pois, como já disse, tirámos o som. É a velha história: para-o-Real-ele-marca-quarenta-mas-para-a-Selecção-não-dá-uma-para-a-caixa. Mas eu não vou tão longe nas críticas. As pessoas gostam de se queixar de barriga cheia, esquecem-se que, apesar de não marcar tantos golos quando desejaríamos, ele assistiu a muitos, várias vezes carregou a equipa às costas. Além disso - e isto é, provavelmente, mais importante que tudo o resto - no Sábado, foi ele quem deu aos colegas as últimas palavras de encorajamento, de optimismo, de determinação:

- Estamos todos aqui atrás de um objectivo e de um sonho. Queremos vencer e temos o destino nas mãos.

Isto só prova que o Cristiano leva a Selecção muito a sério. Os golos não são tudo na vida!

De resto, o que terá impedido uma exibição mais empolgante terá sido a pressão do acesso ao primeiro lugar e o típico degaste de final de época. E não nos podemos queixar. A Selecção, em Outubro, encontrava-se em quarto lugar no grupo e agora estamos em primeiro. Em primeiro! Ninguém acreditava que tal seria possível depois daquela trágica primeira jornada dupla. Tal como desejava, foi um encerramento com chave de ouro de uma época futebolística que ficará para a História. Agora os Marmanjos podem partir para férias descansados, satisfeitos, confiantes de que a qualificação não falhará.

Dizem - e eu acredito - que depois, em Setembro e Outubro, quando disputarmos as últimas jornadas do apuramento, a pressão terá aliviado ligeiramente, os jogadores estarão mais frescos, haverá boas hipóteses de jogarmos com mais brilho, entusiasmo, ass-kicking. E agora que temos três equipas na corrida para o apuramento, as coisas vão aquecer... Mas ainda faltam três meses, ainda é cedo para pensar nisso.

Antes teremos um particular em Agosto, com o Luxemburgo. Será dia 10, no Estádio do Algarve. É sempre o Luxemburgo, ou com o Liechenstein, ou as Ilhas Faroé... Não conseguem arranjar equipas melhorzinhas? Bem, sempre é melhor do que não haver nenhum jogo durante três meses...

Um aparte só para comentar que acho uma crueldade não existirem mais jogos da Selecção por ano. Devia realizar-se pelo menos um jogo por mês!

Não sei se vou conseguir actualizar o blogue aquando desse jogo. Nessa altura devo estar fora de casa, de férias, sem acesso garantido à Internet. Mas vou tentar publicar pelo menos uma entrada. Também não acho que haja muito a dizer...

No Domingo, Pedro Passos Coelho foi eleito Primeiro-Ministro. Assisti ao discurso de vitória. Quando, no fim, soou o Hino Nacional, lembrei-me da Selecção. Nesse momento, percebi que, quando Carlos Queiroz e Paulo Bento assumiram o comando da Turma das Quinas, prometi a mim mesma que os apoiaria e acreditaria neles enquanto estivessem naquele lugar. Mas agora que Passos Coelho assumirá em breve o comando do País, não consigo ter a mesma fé.

Gostava de poder acreditar no País, nos seus governantes, no seu Povo, da maneira como acredito na Selecção Nacional, nos jogadores, na equipa técnica. A sério que gostava. Quero acreditar que a mudança que o eleitorado pediu valerá realmente a pena, que as coisas vão melhorar, que a crise será vencida, ultrapassada, esquecida, de uma vez por todas. Suponho que a diferença resida no facto de a Selecção retribuir, mais cedo ou mais tarde, o apoio, a fé, que lhe são dedicados. O País, os políticos, apenas nos desiludem, apenas pioram cada vez mais a situação.

O tempo dirá se tudo isto valeu a pena, se a alma não é pequena. Entretanto, a Equipa de Todos os Nós deu-nos mais um motivo para acreditar que, daqui a um ano, estaremos na Polónia e na Ucrânia, talvez, quem sabe, esticando um pouco os limites do realismo, lutando pelo título. Já o disse mil vezes, de mil formas, mas volto a repeti-lo: enquanto a boa fase da Selecção Nacional se prolongar, as coisas nunca estarão assim tão más.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Tudo o que é preciso

A Selecção Portuguesa de Futebol tem andado a preparar o confronto com a sua congénere norueguesa - que se realiza amanhã, às 21h, no Estádio da Luz, com transmissão televisiva a cargo da RTP - há cerca de semana e meia mas só na Terça-feira passada é que o grupo ficou completo, depois de Nani, Bruno Alves, Danny e Paulo Machado se terem juntado aos colegas.

O Nani vinha em baixo por causa da derrota do Manchester United na final da Liga dos Campeões mas, segundo dizem, recuperou a boa disposição entre os companheiros da Equipa de Todos Nós. Apenas mais um exemplo do companheirismo que - todos o garantem - reina na Selecção. Eu agora fico sempre com um pé atrás quando me dizem estas coisas. Também o diziam no tempo de Carlos Queiroz e, mais tarde, veio a saber-se que não era bem assim... De qualquer forma, recentemente pude vê-lo com os meus próprios olhos e não notei nada de errado. Conforme já descrevi na entrada anterior, o ambiente parece positivo. Não parece haver motivos para preocupações.

Estava a contar ter oportunidade para publicar umas quantas entradas ao longo deste estágio invulgarmente longo, mas não tenho tido grande assunto sobre que escrever. Mas tenho procurado! Todos os dias folheio os jornais no meu café preferido, consulto as notícias na Internet, cheguei mesmo a ver a entrevista que Paulo Bento deu à RTP no domingo passado. Dou-me ao trabalho de, literalmente, copiar para o caderno onde faço os rascunhos para as entradas do blogue as declarações dos jogadores, na esperança de que alguma frase deles motive um texto jeitoso. Sem sorte.

Todos eles, jogadores e treinador, dão a entender que tudo corre bem no seio da Equipa de Todos Nós. "As coisas voltaram à normalidade e ao bom caminho... [Vitória no Sábado e consequente primeiro lugar] é meio caminho andado para o apuramento... Estamos na máxima força... Todo o grupo está motivado para alcançar os seus objectivos... Dependemos de nós próprios e não queremos desperdiçar essa vantagem... Há que vencer o jogo com a Noruega para irmos de férias descansados... Temos um enorme respeito por uma equipa com quem perdemos na primeira volta e conhecemos bem  a [sua] força e o [seu] jogo mais físico (...) Mas não temos medo...  Se jogarmos ao nosso nível temos grandes hipóteses de ganhar... [A Selecção] dá tudo pelos adeptos... Precisamos deles neste momento tão importante... Todos afinam pelo mesmo diapasão, usam palavreado diferente para transmitir a mesmíssima mensagem, sem nunca se desviarem do politicamente correcto.

Não me interpretem mal. Eu sei que isto significa que eles estão em sintonia, unidos, confiantes, motivados, concentrados (ou, pelo menos, tencionam transmitir essa imagem). Isso é bom. Muito melhor do que no Verão passado, em que ninguém se entendia e a Selecção ia-se desintegrando.  Mas também é uma seca. É uma seca porque, assim, não tenho nada de novo para escrever no blogue. Carlos Queiroz não era uma figura consensual na Opinião Pública. Nessa altura, tinha sempre oportunidade de ir contra tudo e contra todos ao exprimir o meu apoio, a minha fidelidade, a minha fé, e de estimular os outros a fazerem o mesmo. Mas agora que o povo está de bem com a Selecção, não há nada de novo a dizer.

É nestas alturas que compreendo por que é que a Comunicação Social gosta tanto de polémicas. Por que é que, tantas vezes, espicaça os protagonistas, encoraja guerras de palavras, inventa casos. A falta de assunto chega a ser desesperante até para mim, que não passo de uma blogueira ocasional, que só publica duas ou três entradas de tantas em tantas semanas!

É nestas alturas que quase desejo uma declaração mais para o controverso, por exemplo, umas ameaças com as que os nossos "amigos" dinamarqueses gostam de fazer quando jogam connosco. Mas nunca desceria ao nível de provocar situações destas, como fazem os media. Uma coisa é compreender os motivos por que o fazem. Outra coisa, muito diferente, é concordar com o que fazem.

As declarações que vêm do outro lado, tanto quanto sei, têm sido tudo menos provocadoras. Aliás, o seleccionador norueguês, Egil Olsen, chegou a afirmar que considera-nos a melhor Selecção do Mundo por termos goleado a campeã Mundial. Não digo que sejamos os melhores mas já provámos que podemos enfrentar como iguais algumas das melhores selecções do Mundo. É por estas e por outras que, para o jogo de amanhã, somos claros favoritos. Nesta altura do campeonato, ninguém acredita que falharemos o apuramento. Há dois anos era ao contrário...

Mas considero perigosa esta filosofia. Já vi que chegue para não alinhar em vencedores antecipados. A Noruega tem alinhado o seu físico à experiência, pode ser um adversário à altura e já nos venceu nesta fase de qualificação. É certo que as circunstâncias eram tremendamente desfavoráveis mas serviu para provar que, mais uma vez, no futebol não há impossíveis.

A vitória, aliás, pode não ser suficiente para o primeiro lugar. Precisamos de marcar golos para ultrapassarmos a Noruega na tabela classificativa. Nesse aspecto, os noruegueses partem com uma vantagem relativa pois, para se manterem no topo, basta marcarem e perderem pela margem mínima, amanhã.

De qualquer forma, não acredito que tal aconteça. Temos uma defesa sólida, com um guarda-redes competente que de certeza não voltará a cometer o erro humilhante que nos fez sofrer um golo e sair de Oslo derrotados. Temos vários jogadores capazes de marcar golos, incluindo dois pontas-de-lança com potencial para serem titulares e um que marcou quarenta golos na liga onde compete e afirma que "a mira está boa para um golinho".

Outra das nossas armas será o factor casa. Jogadores e treinador têm feito variados apelos ao longo do estágio, estimulando o povo a ir assistir ao jogo. Temos como dois exemplos, os seguintes vídeos:




Por acaso, estava com medo que as pessoas não fossem por ser demasiado caro. O próprio Amândio de Carvalho admitiu que os preços dos bilhetes deviam ser revistos tendo em conta as actuais condições económicas. Mas parece que o pessoal anda a responder ao apelo e que os bilhetes se encontram em via de se esgotarem. Álvaro Albino, responsável federativo, chegou a afirmar:

- A certa altura, o público desligou-se um pouco da Selecção, mas aos poucos tem vindo a ser reconquistado. Estamos a voltar à fase em que há um apoio massivo à Selecção Nacional e isso vai certamente reflectir-se neste jogo.

Em momentos como este, é claro que toda a gente se reúne em torno da Selecção, manifesta o seu apoio. Grande coisa! Não são nestes momentos que se descobrem os verdadeiros adeptos... Mas não quero falar disto, não hoje. É sempre preferível quando a Selecção é verdadeiramente a Equipa de Todos Nós, quando o estádio enche e dá condições para ser criado o mítico Inferno da Luz, para intimidar os noruegueses. E, de qualquer forma, tal como afirmei na semana passada, com ou sem verdadeiros adeptos, quando a Turma das Quinas ganha, a alegria é geral, unânime, democrática, sem amarguras clubísticas.

O jogo é já amanhã. Já começo a sentir o típico entusiasmo que precede os encontros da Selecção Nacional. Como podem ver, temos tudo o que é preciso para fazermos um grande desafio, para vencermos os noruegueses. E apesar do que disse acima, apesar de ter sido feito um apelo à humildade, não resisto a concluir esta entrada com uma dose "saudável" de arrogância, repetindo o que disse aos nossos adversários, há uma semana: we're gonna kick their asses! E acrescento: vamos demolhá-los e ultracongelá-los, como fazemos aos bacalhaus que lhes compramos! Vamos vingar a derrota de Oslo! Vamos dar mais um passo a caminho do Europeu 2012, a realizar dentro de um ano na Polónia e na Ucrânia! Vamos provar-lhes que eles têm razão: que nós somos a melhor Selecção do Mundo!

sábado, 28 de maio de 2011

"We're gonna kick your asses!"

Ontem de manhã a Selecção Nacional cumpriu o seu quarto treino de preparação para o jogo com a Noruega, o último realizado no Estádio Nacional. E eu estive lá!

Sabia que neste estágio ocorreriam muitos treinos abertos ao público, mais do que o habitual. Tinha lido e ouvido acerca da significativa insistência a estas sessões e ficado verde de inveja. Decidi que gostaria de tentar assistir a um, talvez na próxima semana. Só mais tarde é que percebi que eles, na próxima semana, estariam em Óbidos e, por isso, só tinha esta manhã para ver a Selecção. E para isso tinha de faltar às aulas teóricas.

Não foi uma decisão fácil de tomar. Não sou do tipo de me baldar às aulas e explorar lugares desconhecidos. Nunca fui. Das poucas vezes em que fiz desvios, meti-me em tantos sarilhos que ganhei anticorpos. Em todo o caso, fiz umas pesquisas na Internet. Para ir até ao Jamor - zona, aliás, que conheço muito mal - teria de apanhar um comboio na Linha de Cascais, pela primeira vez na minha vida.

Mas depois pensei, precisamente, que ninguém se poderia queixar de mim, muito menos quando comparada com a juventude de hoje. E não ia propriamente passar a noite fora de casa, na borga, rodeada de álcool e drogas. Tenho vinte e um anos e passei um terço deles sonhando com uma coisa destas, com largar tudo, fugir da escola/Faculdade, dos exames, para ir atrás da Selecção. Esta aventura seria o mais próximo que teria de uma experiência dessas. Além disso, o meu fim-de-semana ia ser horrível, fechada em casa a estudar. Dava-me jeito uma experiência como esta para quebrar a rotina, ter algo bom a que me agarrar, que me ajude a sobreviver a estes dias. Por fim, isto dar-me-ia a oportunidade de escrever uma entrada diferente aqui no blogue, em vez de uma 768ª entrada à volta da ideia: "A Selecção está a voltar aos bons tempos e serve de remédio anti-crise".

Por isso, fui. Apanhei o Metro até ao Cais do Sodré e depois o comboio até Cruz Quebrada, tal como vira na Internet. Várias vezes senti o impulso de voltar para trás, para a zona de conforto, sobretudo ao dar com a estação de Cruz Quebrada, minúscula, antiquada, praticamente deserta, ao descobrir que teria de andar um bom bocado a pé até chegar ao Estádio, por ruelas vazias e na margem de estradas com pouquíssimas travessias para peões. Mas obriguei-me a continuar em frente, usando os holofotes do Estádio assomando entre as árvores como ponto de referência.

A minha primeira vitória foi quando, depois de uma subida significativa, cheguei aos portões do Estádio Nacional. Conseguira! Eram cerca de nove horas e vinte minutos. A última vez que estivera no Jamor fora cinco anos antes, depois de sermos expulsos do Mundial 2006. Nesse momento, tocava Here I Am no meu leitor de MP3. Nunca uma música se adequara tanto ao que estava a viver, naquele momento. Cantei, em voz alta:

"Here I am
This is me
There's nowhere else on earth I'd rather be..."

Àquela hora, já a equipa técnica preparava o campo para o treino e meia dúzia de pessoas aguardavam junto aos portões. Confirmei com elas que o treino seria aberto ao público, começaria às dez, duraria cerca de uma hora. Uma carrinha da TVI encontrava-se estacionada no lado de dentro dos portões, carros da SIC e da SportTV iam chegando. Na tenda branca, situada à nossa direita, ouviam-se vozes e eu calculei que um dos Marmanjos estivesse a responder às perguntas dos jornalistas. Mais tarde, descobri que era o Varela.

Às vinte para as dez, Paulo Bento apareceu. Foi também nessa altura que nos abriram os portões. De repente, circulávamos entre jornalistas e polícias, com apenas um baixíssimo muro separando-nos do campo, onde os jogadores começavam a entrar, vindos dos balneários subterrâneos.

O treino começou com jogadores como Ricardo Carvalho, Hélder Postiga, Rolando, João Moutinho, Rui Patrício, Eduardo, trocando a bola entre si. Quando um falhava, os outros "castigavam-no" com palmadinhas na cabeça. Reinava a boa disposição. As gargalhadas, os gritos dos marmanjos, as ordens dos técnicos eram perfeitamente audíveis. O treino assemelhava-se um pouco a uma aula de Educação Física. Observei-os fazendo exercícios de aquecimento, de circulação de bola, em jogos de treino. Tudo era familiar, de acordo com o que já havia lido e ouvido acerca destas sessões. Em teoria, bastaria chamar pelos Marmanjos para que estes olhassem para mim, bastaria saltar o muro para ir ter com eles ao campo. Mas a minha timidez levou a melhor. Quando, por exemplo, o Cristiano Ronaldo entrou em campo, esteve um bocado no banco, à conversa com Fábio Coentrão e Carlos Martins. Podia ter gritado por ele, ele poderia ter olhado para mim. Não arranjei coragem...

Além de que, se tentasse invadir o campo, os polícias detinham-me facilmente.

Felizmente, outros não eram tão tímidos como eu. Estava lá um par de benfiquistas, exibindo um cartaz dizendo "Coentrão (Ben)Fica", que, quando o visado entrou em campo, começaram a cantarolar. Fábio chegou a acenar-lhes. Já perto do fim do treino, ouvi os dois lampiões cantando:

- És o orgulho do Benfica!

Eles chegaram a ser filmados pela RTP, podem vê-lo AQUI. Só que, mais tarde, o Fábio deixou bem claro que queria ir para o Real Madrid. Coitados daqueles dois...

Ao longo do treino, fui tirando fotos e gravando vídeos, com o meu telemóvel. Não têm, por isso, grande qualidade, como podem ver pela fotografia acima. Fui dando a volta ao campo, para poder ver o treino de todos os ângulos possíveis. Durante algum tempo, fiquei a ver o Eduardo realizando trabalho específico de guarda-redes, a partir de uma zona sem mais adeptos para além de mim. Achei graça ao ouvir o técnico dos guarda-redes dando gritos de incentivo ao Eduardo, chamando-lhe "Edu", enquanto trabalhavam os pontapés de canto. Quando fizeram uma pausa para trocar de lado, o Eduardo reparou na única adepta ali perto, uma miúda vestindo calças de ganga, um top preto, um boné branco da Selecção, um cachecol de Portugal à volta do pescoço. Eu acenei-lhe e ele retribuiu. Primeira vez que tive contacto directo com um jogador da Selecção!

Eu sei, sou cá uma totó...

Já mais perto do fim do treino, juntei-me a um grupo de pessoas que haviam juntado, não muito longe da zona onde estavam as câmaras todas. Fiquei perto de um senhor que tinha nas mãos uma camisola do Benfica e um marcador. Também tirei para fora o meu caderno - onde havia tomado notas para escrever esta entrada ao longo do treino - e uma bic, na esperança de que os Marmanjos viessem distribuir autógrafos. No fim do treino, o senhor que referi acima pediu a um membro da equipa técnica que levasse a camisola ao Carlos Martins para que ele a assinasse. O técnico recusou-se, aconselhou-nos a chamar pelos jogadores. Não tivemos, portanto, outro remédio. Ele chamou pelo Martins, eu pus-me a gritar coisas tipo:

- Portugal! Ronaldo! Autógrafo! - enquanto acenava com o caderno e me sentia como uma idiota.

O Cristiano acabou por olhar na minha direcção, de longe. Eu congelei. Limitei-me a olhar para ele, provavelmente com cara de parva, incapaz de acenar ou de fazer um gesto que fosse. E aposto que se isto tivesse acontecido há uns anos, quando nutria uma paixão platónica pelo madeirense, faria figuras ainda mais tristes. O que vale é que ele deve estar habituado a que as pessoas, sobretudo raparigas, se comportem assim na sua presença.

Os Marmanjos desceram de imediato para os balneários, para nossa desilusão. Só o Ronaldo ficou mais um pouco em campo, assinando camisolas e tirando fotografias com umas pessoas.

- O Ronaldo é sempre o mais requisitado - comentei para outro senhor, à minha direita.

- Talvez ele venha, como olhou para ti... - disse ele.

Não chegou a vir, contudo. Não lho levei a mal, pois já tinha andado a distribuir autógrafos. Mas os outros Marmanjos podiam ter vindo. Que diabo, eles depois iam entrar em folga, não podiam sacrificar uns cinco minutinhos do seu tempo para virem dizer "olá"?

Em todo o caso, mal vi que não conseguiria aproximar-me dos Marmanjos, dirigi-me a um membro da equipa técnica, que conduzia não sei aonde um grupo de miúdos pequenos que tinham estado a assistir ao treino e pedi-lhe que entregasse um bilhete dobrado em quatro a um dos jogadores. Tinha mesmo escrito "Para a Selecção" num dos lados, para não dar azo a enganos. O homem deve ter pensado que era um bilhetinho de amor, ou assim. Na verdade, era um bilhetinho contendo o link para uma carta de amor muito maior: o meu blogue. Tinha jurado que não sairia dali sem, pelo menos, fazer chegar esse bilhete ao um dos Marmanjos. Não sei a qual deles o vai receber, se já algum deles o recebeu, ou se já foi esquecido num lugar qualquer. Mas ao menos fiz a minha parte.

Quando me preparava para sair do estádio, um repórter, acompanhado pelo cameraman chamou-me e pediu-me, em inglês, para lhe responder a umas perguntas. Disseram que era para uma televisão norueguesa. Aceitei e esta entrevistazinha acabou por ser o momento mais divertido da manhã. Vou transcrever, o melhor que me lembro, a entrevista:

- How important is this match for Portugal? (Qual é a importância deste jogo para Portugal?) - começaram eles por perguntar.

Não percebi porque me perguntavam isso. Não deveriam fazer essa pergunta a Paulo Bento ou aos jogadores? Que sei eu que eles não saibam? Mas lá me armei em importante e respondi o que já muitos disseram:

- It's pretty important. It's not decisive (na altura nem tinha a certeza se esta palavra existia), it's not gonna decide the qualification but if we beat you guys we'll be first. (É bastante importante. Não é decisivo, não vai decidir a qualificação mas se vos vencermos, seremos primeiros)

- How was it to see Ronaldo training? (Como é que foi ver o Ronaldo a treinar?)

- It's pretty exciting. We're used to only see him through the television and to see him only a few metres away... (É muito excitante. Estamos habituados a vê-lo só na televisão e vê-lo a apenas alguns metros de distância...)

- How was it to see the team training? (Como é que foi ver a equipa a treinar?)

- It was really exciting. I know how the training is, what kind of exercises they do, but to see it live it's a whole different thing... I'm crazy about Portugal's National Team and it rocked to be here. (Foi muito excitante. Sei como o treino é, o tipo de exercícios que fazem, mas vê-lo ao vivo é uma coisa totalmente diferente... Eu sou doida pela Selecção Portuguesa e foi o máximo estar aqui.)

- Which one is your favorite player? (Qual é o teu jogador preferido?)

- I don't have one, I love them all... (Não tenho, adoro-os a todos...) - como eles insistissem, lá respondi - Well, I like Ronaldo because he's... he's Ronaldo. But I also like Eduardo, the goalkeeper, Nani, who's not here, Moutinho, Hélder Postiga... (Bem, gosto do Ronaldo porque ele é... ele é o Ronaldo. Mas também gosto do Eduardo, o guarda-redes, Nani, que não está cá, do Moutinho, do Hélder Postiga...)

- You love them all (Tu adora-os a todos) - concluiu o norueguês, divertido.

- Yeah...

Por fim, a pergunta da praxe:

- Who's gonna win? (Quem é que vai ganhar?)

- Portugal, of course! We're gonna kick your asses! (Portugal, é claro! Vamos dar-vos um chuto no rabo/dar cabo de vocês) - rematei, entre gargalhadas.

Eles riram-se também.

- Good one! (Boa!)

Despedi-me e saí do estádio, divertida, satisfeita por ter falado um inglês razoável, sem gaguejar muito, e por ter dito o que queria dizer. Graças às notas que havia tomado, tinha as respostas mais ou menos bem preparadas. Confesso que soube-me bem eles terem querido ouvir-me, fez-me sentir importante, eh eh! E marcar a posição da minha equipa com a ameaça final. Gostava de ver o vídeo com a entrevista, se eles o passarem na televisão norueguesa. Agora só espero que os Marmanjos cumpram a sua parte e vençam a Noruega, senão, terei feito figuras tristes...

Quando ia a descer a rua, de regresso à estação de comboios, ainda pude ver o autocarro da Selecção a passar. Acenei-lhes com entusiasmo, mas eles passaram muito depressa. Só reconheci o Moutinho, de relance. Nem sei se eles repararam em mim. Mas foi um belo encerramento para aquela que foi, sem sombra de dúvida, uma das melhores manhãs da minha vida!

Se me matassem, naquele momento, morreria feliz. Por ter ignorado o medo que sentia e ter conseguido, sozinha, chegar à Selecção. Mas isto não fica por aqui. Agora que sei o caminho, tenciono voltar ao Jamor sempre que puder, quando a Equipa de Todos Nós estiver lá a treinar, com direito a assistência. Sai mais barato do que ir aos jogos (é só o preço dos bilhetes de Metro e comboio) e é quase tão bom. Pode ser que, das próximas vezes, consiga autógrafos e fotografias com os jogadores. Tenciono tornar-me num rosto conhecido no Jamor. Sempre gostei de chamar a mim própria "adepta hardcore" mas, na verdade, nunca tinha passado do sofá e do computador. Até agora. O meu clube é a Selecção! E agora começo a demonstrá-lo de outras formas.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Dando seguimento

No próximo dia 4 de Junho, a Selecção Portuguesa de Futebol receberá, no Estádio da Luz, a sua congénere norueguesa, em jogo a contar para a Qualificação para o Europeu a realizar na Polónia e na Ucrânia dentro de um ano.

Os Convocados para este encontro foram anunciados ontem, Segunda-feira, dia 23 de Maio, e reunir-se-ão em  Oeiras, amanhã, Quarta-feira, dia 25. Terão uma semana e meia de estágio, já que a época futebolística terminou no fim-de-semana passado, praticamente só faltando a final da Liga dos Campeões. Não faltará tempo para preparar o jogo e poderemos desfrutar de um período mais longo do que o habitual com os holofotes voltados para a Selecção. Só vantagens! Deviam fazê-lo mais vezes! 

Passaram-se cerca de oito meses desde a última ronda de qualificação, em que defrontámos e derrotámos a Dinamarca e a Islândia. Em Outubro, tinha passado cerca de um mês, um mês e meio desde o início da época. Depois de um prolongado drama que culminou com o despedimento do anterior técnico, Paulo Bento acabara de assumir o cargo e preparava a sua estreia no banco da Selecção. Depois de uma primeira jornada dupla que roçara o desastroso, o apuramento equilibrava-se já num trapézio sem rede. Tinha acabado de ser anunciado o PEC III, para entrar em vigor em 2011, segundo o qual os nossos salários seriam cortados e os nossos impostos aumentados. 

Hoje estamos em final de época, uma época brilhante para o futebol português, tendo em conta que colocámos três clubes portugueses nas meias-finais da Liga Europa e dois na final, pela primeira vez; e que Cristiano Ronaldo ganhou a Bota de Ouro e quebrou recordes ao marcar 40 golos na liga. Pena foi o Real Madrid não se ter qualificado para a final da Liga dos Campeões. Talvez Nani o vingue e o Manchester United vença o Barcelona - mas sei que será difícil.

Em contrapartida, neste intervalo de tempo, o PEC III foi posto em prática, Cavaco Silva foi reeleito Presidente da República nas eleições de Janeiro, o PEC IV foi apresentado e chumbado, o Governo ardeu, as eleições que visam decidir o substituto foram marcadas para o dia a seguir ao jogo com a Noruega, foi pedido auxílio externo e a Troika veio para Portugal. Em Outubro, a situação do País era má. Hoje não está melhor em nenhum aspecto - pode-se dizer que está pior - excepto no plano futebolístico. 

Hoje preparamos um jogo, nas palavras de Paulo Bento, "extremamente importante, de grande responsabilidade" em que uma vitória nos possibilitará o acesso ao primeiro lugar do grupo de qualificação. O Seleccionador também recordou que não se trata de um encontro decisivo para o apuramento. Mas certamente contribuirá bastante.

Eu, como sempre, desejo uma vitória por parte da nossa Selecção. Como já antes referi (e às vezes penso que não escrevo outra coisa aqui no blogue, mas também não há muito mais a dizer...), para dar mais uma prova de que a Equipa de Todos Nós se levantou depois de ter dado uma queda feia durante o Verão passado. Para dar uma alegria ao povo português, numa altura em que a única luz que se vislumbra no fundo do túnel é um comboio a toda a velocidade na nossa direcção (talvez o TGV...), no dia escolhido para reflectirmos sobre qual dos incompetentes nos azucrinará durante os próximos anos. Para darmos seguimento à boa época para o futebol português que o FC Porto, o Braga e o Benfica nos proporcionaram, com uma nova alegria, desta vez sem ser pontuada por amarguras bracarenses e benfiquistas. Não resolverá a crise, não trará políticos competentes, mas aliviar-nos-à a depressão, nem que seja apenas por uma noite.  

quinta-feira, 31 de março de 2011

Portugal 2 Finlândia 0 - Cada vez menos impossível

A Selecção Portuguesa recebeu na passada Terça-feira, à noite, no Estádio de Aveiro, a Finlândia, num jogo de carácter amigável e venceu-a por dois golos sem resposta, marcados pelo estreante Rúben Micael.

Desta vez consegui ver o jogo do princípio ao fim. E valeu a pena. Tivemos a nossa primeira vitória do ano. A Selecção jogou acima da média no que toca a jogos particulares, tendo em conta, sobretudo, que Paulo Bento efectuou variadas alterações à equipa habitual.

A verdade é que a Finlândia também não fez muito pela vida. Eu tinha a ideia, pelas dores de cabeça que nos deram na qualificação para o Euro 2008 e por a termos vencido por muito pouco da última vez que jogámos contra a equipa nórdica, de que eles seriam um adversário razoavelmente forte. Mais forte do que foram, pelo menos...  Aquela coisa que eu disse no outro dia, de este jogo ser um ensaio geral, no fim de contas... Só com muita sorte é que a Noruega nos facilita a vida daquela maneira!

Em todo o caso, não há nada a criticar na entrega dos jogadores portugueses. Estiveram praticamente todos bem. Os maiores problemas surgiram mesmo na hora de atirar à baliza - eles falhavam cada uma... Podíamos ter marcado uns quantos. Não sei se foi apenas uma noite má ou se existem motivos para preocupação. Há que dar os parabéns ao Rúben, que não podia ter pedido uma melhor estreia na Selecção, tendo em conta, sobretudo, o facto de ele não ser titular no seu clube. Parece que ele marcou, até, um dos golos mais rápidos de sempre, no que toca aos jogos da Equipa de Todos Nós. A emoção estava bem patente na sua voz quando o entrevistaram depois do jogo. Tinha razões para isso. É mais um que pode vir a dar muito à Selecção.

Depois do jogo, estive a ouvir na rádio as entrevistas aos protagonistas e as análises do encontro. Os elogios que os locutores fizeram à Selecção - que está muito melhor desde que tem Paulo Bento no comando técnico, que tem garra, "identidade própria", espírito de equipa e que tem cada vez mais hipóteses de se qualificar - aquecem-me o coração, apesar de não serem inéditos. Sem alinhar em euforias - já acompanho a Selecção há tempo suficiente para manter os pés assentes na terra - esta vitória deu-me esperança. São estas pequenas coisas que vão tornando o sonho cada vez menos impossível. Eu nunca deixo de acreditar mas existe uma parte de mim que acha que já tivemos a nossa dose de triunfo para os próximos anos com o Euro 2004 e o Mundial 2006. Esta boa fase da Selecção faz-me questionar se terá de ser assim. Talvez tenhamos equipa para nos qualificarmos para o Europeu e para fazermos uma boa campanha na fase final. Temos cada vez mais razões para dizer "Porque não?".

Mas isto sou eu a sonhar, a divagar. Não nos precipitemos. Neste momento, temos de pensar passo a passo, jogo a jogo. E o nosso próximo desafio será frente à Noruega, dia 4 de Junho, no Estádio da Luz. Sei que, anteriormente, revelei ter dúvidas mas agora acredito (acho que nunca deixei de acreditar) que a determinação em nos qualificarmos será mais forte do que o cansaço de final de época. Acredito que venceremos os noruegueses, que chegaremos ao primeiro lugar e que daremos um passo em direcção à Polónia e à Ucrânia. A Selecção representa uma luz, a única luz, num futuro cada vez mais negro. E cada vez teremos mais permissão para sonhar.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Portugal 1 Chile 1 - Cabeças noutro lugar

No Sábado passado, a Selecção Portuguesa de Futebol empatou a uma bola com a sua congénere chilena, num jogo de cariz particular. Os golos foram marcados por Varela (no caso de Portugal) e por Matías Fernández (no caso do Chile).

Começo a análise do encontro com uma confissão: não o acompanhei. Não o vi pela televisão, só liguei o rádio pontualmente, durante a segunda parte, apenas para ouvir o resultado. Estive a jantar com primos que raramente vejo e estava tão entusiasmada com a conversa que nunca mais me preocupei com o jogo.

Em minha defesa, alego que, segundo o que li e ouvi, os jogadores também não estavam muito concentrados no particular. Certamente, andavam mais preocupados com os respectivos clubes. A Comunicação Social, sobretudo a Desportiva, também andava mais interessada nas eleiçõe no Sporting - sobretudo depois daquilo ter dado para o torto. Em suma, estivemos todos com as cabeças noutro lugar que não o Estádio de Leiria.

É por isso que não censuro muito os Marmanjos pelo jogo fraquinho - assim, não perdi muito por não o ter visto. Parece que estes até entraram bem, que a primeira meia hora de jogo não foi má, mas depois disso não houve nem forças nem motivação para mais. O árbitro também não ajudou - passou o tempo todo a parar tudo por dá-cá-aquela-palha. Já se sabe que, excepto quando o adversário tm um nome sonante, tipo Espanha ou Argentina, é raro os jogadores darem o seu melhor quando é a feijões. Sobretudo nesta altura do campeonato - literalmente - em que já existe algum desgaste físico e se aproxima um período decisivo para os clubes.

Não, não são estes jogos particulares que me preocupam. O que me preocupa é que o nosso próximo jogo oficial é em Junho. No final da época. E se,nesta altura do campeonato, já há desgaste físico, em que estado estarão os Marmanjos quando jogarem com a Noruega?

Eu sei que um jogo a três pontos é diferete, sobretudo quando estes permitem aceder ao primeiro lugar agora que a Noruega e a Dinamarca empataram. É, sem dúvida estimulante. Mas e se uma época inteira pesar mais nas pernas dos jogadores do que a ambição da qualificação directa?

Eu continuo a ter fé. Continuo a acreditar. Nos jogadores e no Seleccionador. Continuo a acreditar que, de uma maneira ou de outra, havemos de consumar o regresso da Selecção aos bons resultados, depois do que aconteceu no Verão passado.

Uma vitória no jogo de amanhã, frente à FInlândia, também de cariz amigável, ajudaria a acreditar ainda mais. Esta Selecção é mais semelhante à Noruega, contra quem vamos jogar no dia 4 de Junho. De certa forma, será o ensaio geral antes de entrarmos em campo para lutar por três pontos e pelo primeiro lugar na tabela classificativa.

Este jogo é de carácter particular. O resultado é o menos importante, o que interessa é prepararmo-nos para a Noruega. Não é grave se não vencermos. Mas eu quero uma vitória. Quero ver a Selecção ganhar pela primeira vez este ano. Quero mais uma razão para acreditar que, apesar de tudo o que aconteceu, daqui a um ano estaremos a fazer planos para o Europeu de 2012, a realizar na Polónia e na Ucrânia.


P.S. Mil vezes enterrei este assunto, mil e uma vezes exumei-o. E começo a ficar farta. As recentes declarações de Carlos Queiroz versando Pepe revelaram ainda mais o péssimo carácter que o ex-Seleccionador possui. Eu compreendo que Queiroz, tal como disse Oceano, "durante meses foi muito injustiçado" e agora quer ripostar mas escolheu a vítima errada. Não que aquilo tenham sido coisas que se diga a qualquer um, mas Pepe apenas quis proteger a Selecção, Selecção essa que ainda está a lidar com as mazelas da confusão que ele ajudou a despoletar (quer tenha sido ou não contra o doping, ele insultou um ser humano, por amor de Deus!). O Professor perdeu outra oportunidade para ficar calado.
Agora espero sinceramente não ter de voltar a falar sobre este assunto. Espero-o há meses mas não tenho tipo grande sorte...

quinta-feira, 24 de março de 2011

A única coisa boa

No próximo Sábado, dia 26 de Março, a Selecção Portuguesa de Futebol enfrenta a Chilena, em jogo de carácter preparatório. Três dias depois, enfrenta a Selecção Finlandesa, igualmente de forma amigável. Paulo Bento, o Seleccionador Nacional atribuiu importância extrema a estes dois encontros, visto que se tratam dos últimos antes da recepção à Noruega, que contará para a Qualificação para o Europeu de 2012. Além disso, como já foi assinalado, esta semana constitui o maior intervalo de tempo que a Selecção tem para treinar desde o início desta fase de qualificação.

Confesso que não sei muito sobre a Selecção no Chile. Só jogámos contra eles duas vezes. Curiosamente, foi a primeira equipa que Portugal defrontou oficialmente. Foi em 1928, nos Jogos Olímpicos de Amesterdão. A Selecção Nacional esteve a perder por duas bolas a zero, mas conseguiu virar o resultado e chegar ao apito final vencendo por 4-2! Bela estreia... Parece que foi mesmo a primeira reviravolta da História da Selecção. O nosso segundo jogo foi em 1972 e também vencemos. Desta feita, por 4-1.

Neste Sábado, as atenções também se encontrarão viradas para o embate que oporá a Dinamarca e a Noruega, os nossos maiores adversários na qualificação. Uma vitória da Dinamarca, que se encontra a três pontos da Noruega, líder da tabela, ser-nos-ia favorável, uma vez que ficaríamos dependentes de nós próprios na corrida pelo primeiro lugar e pela Qualificação directa. Não sei qual das duas selecções nórdicas será a favorita, mas já tivemos sorte anteriormente em situações semelhantes... Que seja o que Deus quiser, esta qualificação ainda vai a meio... Não vale a pena preocuparmo-nos com coisas que não podemos controlar.

No que toca à Selecção Portuguesa, existem umas quantas ausências por lesão, a mais significativa das quais Cristiano Ronaldo. Baixas nesta altura do campeonato não são muito graves - podem até constituir uma oportunidade para testar alternativas, sem pressão. E desde que, quando for a sério, estejam todos disponíveis...

A verdade é que estas vantagens não servem de consolação para Cristiano Ronaldo. O madeirense não escondeu a sua frustração por estar afastado dos relvados. Afirmou mesmo ter "a cabeça cheia por causa desta lesão". Vê-se à distância e a olho nu que este adora sinceramente o que faz, independentemente do seu salário astronómico. É raro encontrar jogadores tão apaixonados como ele.

Além disso, ele é um sortudo do catano por fazer aquilo que adora e receber absurdamente bem por isso.

Apesar daquilo que referi acima, apesar daquela máxima que diz que não-existem-jogadores-indispensáveis, Ronaldo... é Ronaldo. Não há volta a dar. Adaptando a frase-feita da moda: "A Selecção podia viver sem Ronaldo? Poder, podia. Mas não era a mesma coisa."

Entretanto, esta semana concluiu-se que, afinal, Carlos Queiroz não pretendia perturbar o controlo anti-doping durante o Estágio de Preparação do Mundial de 2010, na Covilhã. Demoraram  um ano a chegar a essa conclusão... e acho graça ter sido precisamente numa semana em que a Selecção está reunida! Pela primeira vez em quase dois meses! Queiroz já anda por aí criticando a torto e a direito e há quem lhe responda... Pepe já veio pedir ao ex-seleccionador para parar com isso, que destabiliza a Selecção. Eu pego no que ele disse e acrescento: todos os que provocaram esta situação deviam calar-se de vez, se é que têm um mínimo de respeito pela Equipa de Todos Nós! Foi ela quem mais sofreu com a confusão que eles criaram. Por causa deles estamos aqui a fazer figas para que a Dinamarca vença no Sábado, para conseguirmos limpar mais facilmente a porcaria que eles fizeram. Já dificilmente os perdoarei pelo que fizeram, eles que não piorem as coisas. E não quero falar mais deste assunto, que já me enervou o suficiente.

Também esta semana, faleceu Artur Agostinho, aos noventa anos. Não vou mentir, o senhor não me dizia por aí além. Ela um rosto simpático da televisão, colunista do Record, penso que, durante a preparação para o Mundial, foi dos poucos jornalistas a manifestar apoio incondicional à Selecção, apesar de ter criticado a Convocatória. Apesar disso, o seu desaparecimento perturbou-me. Suponho que seja típico do envelhecimento: pessoas que conhecemos vão-nos deixando...

Ao menos, Artur Agostinho foi devidamente homenageado enquanto vivo. Teve melhor sorte do que muitas personalidades, cujo mérito só foi reconhecido depois de morrerem...

Por outro lado, Agostinho deixa este mundo e um dia mais tarde, o Primeiro-Ministro pede a demissão. Não sei se ele também tinha este desejo, mas eu gostava se, quando morrer, o País já tivesse encontrado um rumo, depois de séculos e séculos sempre em crise, sempre vivendo acima das possibilidades, sem que ninguém conseguisse dar a volta ao texto. Mas isto sou eu a ser jovem, idealista, ingénua... Na verdade, estou seriamente desanimada com o estado das coisas.

Sei que já o referi várias vezes aqui no blogue, mas não me canso de repeti-lo: a Selecção é, provavelmente, a única coisa que funciona bem neste País. A única coisa que nos faz sorrir, ainda que por pouco tempo. A única coisa que nos orgulha de sermos portugueses. É por causa disso que escrevo este blogue: para, de certa forma, retribuir o que me é dado.

Por isso é que desejo que esta semana de estágio dê frutos. Para que possamos esperar, sem risco de sonhar demasiado alto, por algo de bom de futuro.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Portugal 1 Argentina 2 - Alta mantém-se

Ontem, a Selecção Portuguesa saiu derrotada, por duas bolas a uma, do encontro particular realizado no Estádio de Genebra, na Suíça, em que defrontou a Argentina.

Foi um belo jogo de futebol, sobretudo durante a primeira parte, muito equilibrado. Todos concordam que o empate teria sido o resultado mais justo. Mas já lá vamos.

Assisti ao jogo pela televisão, durante a primeira parte, enquanto jantava com a minha família, durante a segunda parte, na sala, com o meu pai e o meu irmão. Estive bem mais descontraída do que estaria se este fosse um encontro oficial.

Tal como previ, a Selecção Nacional jogou em casa. Uma boa parte das trinta mil almas que emolduravam o campo eram portuguesas. Estavam mais portugueses no Estádio de Genebra, na Suíça, do que, se calhar, estavam no Estádio da Luz, em Portugal, durante o jogo contra a Espanha. O hino português foi entoado em plenos pulmões e ecoou por todo o Estádio - um momento mágico, como costuma ser o hino nacional no início de cada jogo da Selecção. Durante todo o encontro, os portugueses fizeram-se ouvir, claramente; mais uma vez - mais do que costumam fazer-se ouvir em jogos em território nacional.

Razão tem, se calhar, Pauleta quando disse, há tempos, que mais valia a Selecção disputar os seus encontros no estrangeiro, em países com significativas comunidades de emigrantes. Mas, pelo menos no que toca ao público reduzido, quem sou eu para falar? Eu, que gosto de me chamar "verdadeira adepta", mas não ponho os pés num jogo da Selecção há três anos e meio? Obviamente que, por minha vontade, já teria ido a vários jogos, mas suponho que seja essa a situação da maior parte das pessoas. Os preços dos bilhetes, a crise, as horas tardias em dias de semana, a meteorologia, nada disso ajuda...

Mas voltemos ao Portugal-Argentina. O golo do Di Maria, aos catorze minutos, não me aborreceu muito. Tive foi medo que o golo desnorteasse os Marmanjos. Isso talvez acontecesse há bem pouco tempo, mas não aconteceu ontem. Como provou o golo do Cristiano Ronaldo, poucos minutos depois. 

- Ó Messi, vem cá dar um abracinho - gracejou o meu irmão, enquanto os Marmanjos celebravam o tento. 

O Cristiano marcou, deste modo, o primeiro golo da Selecção no ano de 2011. Que seja o primeiro de muitos!

Até ao intervalo, manteve-se o ritmo elevado. A Selecção entrou bem na segunda parte, embora tenha falhado algumas oportunidades inacreditáveis, tendo sido o maior desperdício aquele cometido por Hugo Almeida aos cinquenta e seis minutos. Se tivessem marcado, as coisas podiam ter corrido de maneira bem diferente...

Entretanto, Ruí Patrício, que tomou o lugar do Eduardo na segunda parte, defendeu de forma soberba um livre cobrado por Messi. Como disse o meu irmão, poucos guarda-redes se podem gabar de terem defendido um pontapé livre executado pelo actual Melhor do Mundo. É bom saber que existem opções para a posição de guarda-redes.

O meu irmão disse que, neste jogo, Paulo Bento não substituiria Cristiano Ronaldo. Era o único jogo em que não o substituiria. Enganou-se. O Seleccionador falava a sério quando afirmou que não via o Portugal-Argentina como um duelo Ronaldo-Messi. Desse modo, poucos minutos depois de o meu irmão ter falado, Bento trocou o madeirense pelo Danny.

Tal decisão suscitou protestos por parte do público mas eu acho que fez bem. Tratava-se de um jogo particular, de treino. Testar as armas é mais importante do que o espectáculo ou mesmo do que a vitória.

Por outro lado, espero bem que Paulo Bento tenha tirado conclusões com estas substituições que, depois delas, o jogo ficou extremamente enfadonho... Mas isto já é habitual nos particulares, depois de metade da equipa actual ter ido para o banco. 

Como já muita gente assinalou, o segundo golo da Argentina acabou por surgir "quando ambas as equipas já estavam conformadas com a igualdade". E, como foi em cima do minuto noventa, já não houve tempo para dar a volta ao texto.

Paulo Bento teve a sua primeira derrota ao leme da Selecção, mas tal não é grave. Não macula de forma nenhuma o excelente trabalho que tem vindo a desenvolver desde que assumiu o cargo. Provámos, mais uma vez, como também já muitos observaram, que temos o que é preciso para enfrentarmos quaisquer adversários como iguais. A Selecção continua em alta, em crescendo. Como disse Hélder Postiga, "a equipa mostrou qualidade para estar no Europeu da Ucrânia e Polónia em 2012 e só temos de continuar assim". Como disse Cristiano Ronaldo, " esta é uma Selecção totalmente diferente da que jogou o Mundial 2010 mais ainda temos muito trabalho pela frente para estarmos ao melhor nível no Europeu em 2012".

Perdemos um particular com uma das melhores selecções do Mundo pela margem mínima, por um pormenor. E depois? É para isso que servem os jogos particulares, para testarmos opções, tácticas, detectar os nossos pontos fracos, cometermos erros, para que, quando entrarmos em capo para lutar por três pontos, estarmos preparados. Esta derrota não influenciará a Qualificação para o Euro 2012, pelo menos não pela negativa. E, se tiver servido para Paulo Bento tirar ilações e tornar a Selecção mais forte, este jogo particular influenciará a campanha, certamente, pela positiva.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Alta para manter

Primeira entrada de 2011! Bom ano a todos! A Selecção Portuguesa de Futebol enfrenta a sua congénere Argentina, hoje à noite, às 20 horas de Portugal Continental, no Estádio de Genebra, na Suiça, num jogo de carácter particular, preparatório dos próximos desafios da Qualificação para o Europeu de 2012.

Os Convocados foram anunciados na passada Quinta-feira, dia 3 de Fevereiro, numa Conferência de Imprensa que incluiu uma homenagem a Eusébio da Silva Ferreira, que completou recentemente sessenta e nove Outonos e cinquenta Verões desde a sua chegada a Portugal. O eterno Pantera Negra, o eterno Rei, que, conforme disse Gilberto Madaíl, "lançou o nome de Portugal por este mundo fora", isto numa época em que o Mundo apenas dava os primeiros passos na jornada de se tornar uma Aldeia Global e os jogadores de futebol, nem mesmo as sensações como Eusébio, ainda não ganhavam os salários astronómicos que alguns ganham hoje. Ele é o exemplo vivo do amor à camisola "de Portugal e do seu clube", que ainda não diminuiu passados cinquenta anos. Já não há jogadores assim! E dificilmente voltará a haver!

Que fique connosco por mais cinquenta anos!

Os jogadores Escolhidos não constituem grande surpresa no geral. Já se sabe que "em equipa que ganha, não se mexe", muito menos depois de a dita equipa pespegar quatro golos sem resposta à actual campeã do Mundo e da Europa...

Outro tema abordado na Conferência foi o problema dos estatutos da Federação ou coisa assim, não percebo muito bem do que se trata... Mas parece que, se aquilo dá para o torto, a Selecção deixa de poder competir (?!). Paulo Bento exprimiu o desejo de que esta polémica não afectasse os jogadores, desejo que eu subscrevo.

De resto, os dirigentes da Federação já perderam a minha confiança há muito, desde o caso Queiroz. Com esta, desceram ainda mais na minha consideração e já vão a uma grande profundidade. Por outro lado, nunca acreditei muito nos dirigentes - futebolísticos e não só... - em geral, sempre os considerei corruptos, incompetentes, mais interessados no dinheiro e no prestígio do que em fazer o seu trabalho. Embora não saiba explicar exactamente porquê, sempre achei os jogadores mais íntegros, mas sei perfeitamente que nem todos são assim. Sei que vai haver eleições na Federação em breve, mas (a expressão que tenho na cabeça pode ser considerada ofensiva, por isso, optarei por uma versão atenuada ) estou-me nas tintas. Desde que não afecte a Selecção Nacional, eles bem podem matar-se uns aos outros, eu não quero saber. Eles que não se atrevam a prejudicar a Selecção outra vez!

Segundo Paulo Bento, os objectivos da Selecção para este jogo são "ganhar e jogar bem". O Seleccionador Nacional não tenciona quebrar o seu registo de 100% de vitórias, como é natural. Como afirmou Quaresma, a Selecção encontra-se "em alta", neste momento - é capaz de ser a única instituição do país que se encontra em alta... Toda a gente quer ver este bom momento da Selecção prolongar-se o mais possível. Haverá, além disso, certamente, quem sonhe com uma vitória semelhante à nossa última, frente à Espanha. Eu acho difícil tal feito repetir-se, foi um caso muito especial, mas é óbvio que acredito na vitória. 

O jogo realizar-se-à, como já referi acima, no Estádio de Genebra, precisamente a mesma arena em que enfrentámos a República Checa, no Euro 2008, vencendo-a por três bolas a uma. Parece que foi há tanto tempo... Quaresma e Ronaldo marcaram dois dos golos e o primeiro afirmou que esperava voltar a marcar em Genebra. A mim não me interessa muito quem é que marca os golos, desde que os marque na baliza da Argentina. Também espero que o jogo, que começa daqui a pouco mais de uma hora, seja tão emocionante como foi o nosso segundo desafio do Europeu de 2008. 

Uma grande contribuição para tal emoção será, certamente, o tão apregoado duelo Ronaldo vs Messi. Paulo Bento bem pode afirmar que não encara o jogo de hoje dessa forma, mas não há como fugir da dualidade Ronaldo/Messi. Embora tal possa não ser bem assim dentro das quatro linhas, fora delas, este embate é o órgão propulsor deste particular.  Foi ele que fez com que oitenta e oito televisões, em todos os continentes, nos mais diversos fusos horários, tenham adquirido os direitos de transmissão do jogo. Foi ele que fez com que os bilhetes se esgotassem, apesar da crise e dos preços não muito acessíveis.

E daí não necessariamente, pelo menos em relação a este último ponto. Já se sabe que, onde quer que esteja, a Selecção joga sempre em casa. Mas mesmo assim...

OK, OK, já que insistem... Já perguntaram isto a toda a gente, desde José Mourinho até ao empregado do café da esquina, havia de chegar a minha vez... Prefiro o Ronaldo, porque é português e tenho seguido, mais ou menos atentamente, e admirado-o desde os seus tempos no Sporting. 

Mas como estava a dizer, onde quer que jogue, existe invariavelmente uma comunidade portuguesa, mais do que disposta a apaparicar os Marmanjos. Já não é novidade. No treino da Selecção, na última Segunda-feira, compareceram 3000. No jornal Record compararam o ambiente ao de um concerto de rock. Achei graça, porque sempre considerei os jogos de futebol semelhantes a concertos dos nossos cantores/bandas preferidos. É exponencialmente mais emocionante assistir ao vivo do que apenas vendo na televisão ou ouvindo no leitor de MP3. O público desempenha sempre um papel importante. São ambas experiências inesquecíveis. Pelo menos para mim.

Desta vez, não posso assistir ao vivo. Não tenho podido assistir ao vivo a um jogo de futebol há mais de três anos... Mas espero sinceramente que o jogo, que começa daqui a pouco mais de meia hora, seja uma experiência inesquecível. Pelas melhores razões. Não só pelo Ronaldo vs Messi, mas por ser um embate entre duas Selecções de alto nível. Por manter a boa fase que a Selecção Portuguesa atravessa neste momento. Força Portugal!

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Selecção 2010



Mais um ano encontra-se à beira do fim, mais um ano encontra-se à beira do início. É costume as pessoas reflectirem sobre os acontecimentos mais marcantes dos últimos doze meses e tentarem prever o que acontecerá nos próximos doze. No que toca à Selecção Nacional, este foi um ano de altos e baixos, alguns muito altos, alguns muito baixos. Há um ano atrás eu não imaginava, nem nos meus mais delirantes sonhos, que a nossa Selecção passasse por tais coisas, que fizesse tais coisas.

Comecemos pelo primeiro jogo do ano, um particular de preparação para o Mundial, frente à China, realizado em Coimbra, no dia 3 de Março. Por esta altura, já tinha estalado a polémica devido a uma alegada troca de agressões entre Carlos Queiroz e Jorge Baptista, no dia do sorteio da fase que qualificação do Euro 2012. Um episódio desagradável, mas hoje parece uma ninharia quando comparado com o que aconteceu no Verão.

O jogo representava a "última oportunidade de contactar com os jogadores antes da Convocatória Final". Servia ainda para preparar o embate com a Coreia do Norte. A Convocatória para este encontro causou polémica por não incluir nenhum jogador do Benfica, equipa que, semanas mais tarde, sagrar-se-ia campeã. Portugal venceu a China por duas bolas a zero, golos de Hugo Almeida e João Moutinho.

Um aparte só para observar que o Hugo marcou não só o primeiro golo da Selecção no ano de 2010 mas também marcou o último do ano. Parece mesmo que ele foi o maior marcador deste ano, tendo feito um total de seis bolas cruzar a linha de baliza. Quando marcou frente à China, eu desejei que o fosse o primeiro golo de muitos. E, de facto, marcou-se bastante este ano.

Voltando ao particular, foi um jogo mediano. Manifestaram-se os problemas na finalização que haviam marcado a fase de qualificação. O rendimento da equipa ressentiu-se das substituições ao intervalo. A segunda parte foi ainda marcada pelos assobios dos adeptos, desagradados com a fraca exibição.

Os Convocados foram Anunciados em Maio. Poucos dias antes, Queiroz havia dado uma entrevista a "A Bola". Aqui disse, entre outras coisas que "o padrão de continuidade é o único que dá mais hipóteses a uma Selecção como Portugal de se intrometer entre os grandes" - o que hoje é irónico visto que, depois de trocarmos de Seleccionador, demos quatro à Campeã Europeia e Mundial.

Mas, voltando à Convocatória, esta foi anunciada com pompa e circunstância - que hoje, que sabemos que a nossa participação no Mundial deixou muito a desejar, parece ridícula. O Estágio na Covilhã começaria alguns dias mais tarde. Enquanto este decorria, eu julgava que tudo corria bem, que o ambiente na Selecção e a relação entre jogadores e treinador era positiva - hoje sei que não foi bem assim. Foi também durante o Estágio que se deu o incidente que, depois do Mundial, desencadearia uma série de acontecimentos que culminariam no despedimento de Carlos Queiroz.

No dia 24 de Maio, poucos dias depois do início do Estágio, numa altura em que o grupo ainda não se encontrava completo, Portugal recebeu a Selecção Cabo-Verdiana, no primeiro de três particulares com equipas africanas que visavam a preparação do embate com a Costa do Marfim. Foi um jogo fraquinho, que terminou com o marcador por abrir. Nani e Fábio Coentrão foram os poucos com um desempenho positivo. Jogadores e Seleccionador invocaram o pouco tempo de estágio e a "falta de frescura física" como desculpas, perdão, razões para a má exibição, garantindo no entanto que "a partir de agora é a sério".

E, de facto, o particular que se seguiu, frente aos Camarões, no dia 1 de Junho, foi significativamente melhor do que o anterior. A Selecção venceu por três bolas a uma. Marcou o fim do Estágio na Covilhã.

Uma semana mais tarde, já na África do Sul, a Selecção Nacional venceu a sua congénere moçambicana por três bolas sem resposta, num dia marcado pelo regresso de Nani a casa, por lesão. Este regresso causou polémica e ainda hoje não consigo perceber porquê. Carlos Queiroz tinha deixado bem claro  que fora "o caso mais difícil que tiver de gerir do ponto de vista humano", que "A entrega e a obstinação que ele mostrou para disputar o Mundial foram uma das maiores provas de profissionalismo a que já assisti" e que "o Nani é um exemplo para todos". Quer dizer, quem seria idiota ao ponto de abdicar de tal jogador sem uma fortíssima razão? Não percebo, realmente...

E, como já referi antes, não consigo evitar pensar que o Mundial poderia ter corrido de maneira diferente se o Nani tivesse estado lá.

Portugal estreou-se no Mundial uma semana depois, frente à Costa do Marfim, no dia 15. O jogo terminou sem que o marcador abrisse. As opiniões sobre se este resultado era positivo ou negativo para a Selecção dividiram-se. Este jogo ficou ainda marcado pelas polémicas declarações de Deco, que abalaram ainda mais a já fragilizada credibilidade do Seleccionador.

No dia 21 de Junho, a Selecção Nacional entrou em campo com a Coreia do Norte, no Estádio da Cidade do Cabo. Até àquele momento, nenhuma Selecção havia triunfado naquele estádio. Esperava-se que Portugal, um pouco à semelhança do que Bartolomeu Dias havia feito, fosse de novo o primeiro a dobrar o Cabo das Tormentas, transformando-o em Cabo da Boa Esperança.

E foi o que aconteceu. A Selecção Portuguesa venceu a Norte-coreana por sete bolas sem resposta. Os marmanjos jogaram com mais garra, coragem, determinação, alegria e com muito menos medo, como não jogavam há muito e como só voltariam a jogar em Outubro. Todos os jogadores estiveram bem, com destaque para Tiago. Esperava-se que esta vitória representasse o ponto de viragem.

Não foi bem isso o que aconteceu. No dia 25 de Junho, a Selecção defrontou a sua congénere brasileira. Tratava-se de um jogo praticamente a feijões, praticamente só para disputar os dois primeiros lugares do grupo. Como tal, foi um jogo morno, sem golos. O Brasil ficou em primeiro lugar e Portugal ficou em segundo. Nesse dia descobrimos ainda que nos oitavos-de-final, no dia 29 de Junho, defrontaríamos nuestros hermanos espanhóis.

O jogo até começou bem, a primeira parte foi muito equilibrada. Ao intervalo, Queiroz optou por tirar Hugo Almeida. Tal decisão causou polémica, pensa-se que a saída do ponta-de-lança terá resultado no golo espanhol. "O coração parou de bater aos 63 minutos..." Portugal ressentiu-se, não conseguiu anular a desvantagem, o jogo acabou e a Selecção foi expulsa do Mundial.

No fim do jogo, Eduardo chorava. Ele, talvez mais do que qualquer outro, merecia mais. Cristiano Ronaldo não ajudou. As suas polémicas palavras "Perguntem ao Queiroz", bem como o "Assim não ganhamos, Carlos!" que terá atirado ao Professor aquando do golo espanhol foram duas das muitas pedras posteriormente atiradas ao Seleccionador. Metade do país exigia a sua demissão. Por sua vez, Queiroz, longe de abdicar do cargo, afirmou que "vamos continuar com a cabeça erguida" e de da próxima vez voltaríamos "mais fortes e mais competitivos". Na altura concordava com ele, achava que o seu afastamento pouco ou nenhum benefício traria à Selecção.

Mas agora, tendo em conta tudo o que aconteceu depois, talvez tivesse sido melhor. Qualquer coisa teria sido melhor do que o que aconteceu depois.

Eu nem quero recordar os pormenores todos. Aquele foi, sem dúvida, a pior fase por que a Selecção passou desde que me lembro. Parece que foi mesmo a pior de sempre. A polémica arrastou-se durante quase todo o Verão, sem solução à vista, ou melhor, sem que ninguém se esforçasse por encontrar uma solução. Quase nenhum dos jogadores veio defender o Seleccionador, Paulo Ferreira, Simão e Miguel até escolheram aquele momento para fugirem, perdão, saírem da Selecção. O que era mais do que esclarecedor em relação ao ambiente entre jogadores e treinador. Ninguém parecia ter noção dos danos que aquilo estava a provocar à Equipa de Todos Nós, ninguém fazia o mínimo esforço para resolver de vez aquela confusão. A Selecção ia sendo destruída aos poucos e ninguém via, ninguém mexia um dedo para o impedir. Gilberto Madaíl foi ao extremo de opinar, a poucos dias do primeiro jogo de qualificação para o Campeonato da Europa de 2012, que nada daquilo afectaria a equipa, que os marmanjos sabiam "jogar em piloto automático". Se todos os pilotos automáticos fossem como aquele, haveria acidentes aéreos todos os dias...

Para mim não foi, portanto, surpresa que a jornada dupla tivesse terminado com um empate e uma derrota, cinco golos sofridos, cinco pontos perdidos. A qualificação equilibrava-se num trapézio sem rede e acabara de começar. A situação havia conseguido minar a confiança dos jogadores, minar a defesa que pouco tempo antes era o nosso maior ponto forte.

A situação chegara a um ponto em que a única solução era correr com Queiroz. E foi o que aconteceu.

Quase imediatamente a seguir ao despedimento, já se falava de Paulo Bento como possível sucessor. Contudo, ainda houve tempo para Gilberto Madaíl fazer uma visita a Madrid e pedir a Mourinho que viesse orientar a Selecção Nacional apenas durante a seguinte dupla jornada de qualificação. Já dei voltas à cabeça mas as únicas palavras que encontro para descrever a situação são mesmo "WTF?!?!" ou "mas que raio...?!?!?". Realmente, não percebo em que raio estava o Presidente da Federação a pensar. Mourinho por sua vontade aceitaria a súplica, perdão, o convite sem cobrar nada, mas o Presidente do Real Madrid não deixou.

Madaíl teve então de voltar a Portugal e contratar Paulo Bento. Tal escolha revelou-se bastante consensual na opinião pública. Eu é que não estava a ver como poderíamos dar a volta ao texto. No primeiro treino da Selecção com Bento como Seleccionador Nacional, os adeptos foram assistir em força e mostraram ostensivamente o seu apoio. Mais do que nos dois anos anteriores, dizia-se. Não sei se acreditavam sinceramente do novo Técnico ou se queria apenas provocar o anterior...

Entretanto, mais ou menos nessa altura, a poucos dias do nosso terceiro jogo de qualificação, Mourinho enviou uma mensagem apelando à união em torno da Selecção e de Paulo Bento. Com esta e com a sua reacção ao convite disparatado de Gilberto Madaíl, o treinador do Real Madrid subiu consideravelmente na minha consideração. No meio de todos os corruptos por detrás do "caso Queiroz", José Mourinho era provavelmente a única pessoa íntegra, a única que colocou os interesses da Selecção à frente dos seus. E mesmo que tivesse sido só para se auto-promover, o que é certo é que o seu gesto beneficiou a Selecção e os gestos de outros apenas a atiraram ainda mais para o charco.

No dia 8 de Outubro, Portugal recebeu a Dinamarca no Estádio do Dragão e venceu-a por três bolas a uma. Dois golos seguidos de Nani, um auto-golo de Ricardo Carvalho e um de Cristiano Ronaldo. E a Selecção voltava a jogar com o entusiasmo e a alegria de antigamente. Paulo Bento não poderia ter pedido melhor estreia ao comando da Turma das Quinas.

No dia 12, Portugal foi à Islândia vencer pelo mesmo resultado. Cristiano Ronaldo, Raúl Meireles e Hélder Postiga marcaram os três golos da Selecção. A Equipa de Todos Nós parecia estar de regresso.

Tal voltou a confirmar-se um mês depois. No dia 17 de Novembro, houve um particular entre as duas Selecções Ibéricas, a propósito da Candidatura à Organização do Mundial de 2018. A Selecção Portuguesa venceu a actual Campeã da Europa e do Mundo por quatro golos sem resposta. Foi o melhor jogo da Selecção dos últimos anos, uma exibição perfeita. Parecia que estávamos a jogar contra uma equipa vulgar, não com a Campeã. Não ganhámos três pontos, ganhámos muito mais.

Em suma, a Selecção de 2010 esteve a milímetros de ir por água abaixo, mas conseguiu voltar a erguer-se, subiu, subiu e até deu quatro à Espanha. Termina o ano no melhor nível desde há séculos, deixando boas promessas para 2011.

Ainda não acredito que isto aconteceu, nunca me tinha passado pela cabeça que uma simples troca de Seleccionador tivesse tal efeito. Por mais cruel que me pareça, parece mesmo que a culpa era de Carlos Queiroz. Como diziam no Record, "onde com Queiroz havia medo, há agora segurança. Onde com Queiroz se inventava, há agora simplicidade. Onde com Queiroz se bocejava, há agora espectáculo. Onde com Queiroz era derrota certa" - ou empate, digo eu - "há agora sempre esperança". Cada vitória de Paulo Bento representa uma derrota para Queiroz. E por muitas voltas que dê ao texto, contra factos não há argumentos. Eis os factos: com Bento ao leme, a Selecção marcou dez golos em três jogos (e não jogámos propriamente com o Luxemburgo, longe disso!) e os Marmanjos voltaram a jogar alegres como o Waka Waka. 


Eu não consigo esquecer que Queiroz fez muito pela Selecção, fez-me acreditar na Selecção e a forma como foi despedido foi tudo menos justa. Mas a verdade é que a Selecção já não precisa dele. Quem me dera que ele tivesse saído logo a seguir ao Mundial para que recebesse a indemnização e tudo a que tinha direito de acordo com o contrato assinado e a qualificação nunca tivesse sido prejudicada. Mas a História escreve-se a tinta-da-china e não há maneira de alterá-la. Agradeço ao Professor tudo o que fez pela Selecção, desejo-lhe toda a sorte do Mundo e que encontre justiça, mas Carlos Queiroz já não faz falta.

Por outro lado, não sei se não terá sido o facto de termos afundado tanto, de termos empurrado tanto a mola até ao fundo que nos catapultou para a melhor fase em anos.

Temos já uns quantos particulares marcados. Um com a Argentina, dia 9 de Fevereiro, um com o Chile no dia 26 de Março e outro com a Finlândia no dia 29 do mesmo mês. Em Junho, a qualificação é retomada com a recepção à Noruega no Estádio da Luz.

É um dos meus desejos para 2011 que a boa fase que a Selecção actualmente atravessa tenha vindo para ficar. Tenho quase a certeza que pelo menos este se cumprirá. É uma das poucas coisas boas com que poderemos contar no ano que vem, no meio do IVA a 23%, dos salários cortados e da ameaça do FMI.

Desejo, portanto, a todos os leitores que consigam fazer frente às dificuldades que o Ano Novo trouxer consigo. Que a Selecção Nacional, a Turma das Quinas, a Equipa de Todos Nós seja, como já foi, este ano (pelo menos para mim), um motivo de alegria, algo que nos ajude a enfrentar a crise, algo que nos dê argumentos, por mais fúteis que sejam, para desejar a todos um Feliz Ano Novo!

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Uma oportunidade como a nossa

Era para ter escrito há dias, mas faltou-me tempo e inspiração. Na Quinta-feira passada, a Rússia foi escolhida para organizar o Campeonato do Mundo em Futebol a realizar em 2018, ultrapassando outros candidatos: Inglaterra, Bélgica-e-Holanda e Portugal-e-Espanha.

Não consegui evitar ficar desiludida com este resultado. Tinha passado os últimos dias em pulgas, com uma vaga esperança de que nos escolhessem. Na Quinta, então, depois de ter apresentado um trabalho às dez da manhã, praticamente não pensei noutra coisa. Como estive o dia todo na Faculdade, não tinha acesso a uma televisão, o único meio que possuia para acompanhar a cerimónia era o meu leitor de MP3.

Já se sabia que, qualquer que fosse o vencedor, a escolha estaria envolvida em polémica. E não nos enganámos: já se fala de possíveis conversas secretas que Vladimir Putin terá tido com os membros do comité e os ingleses querem que se mude o método de escolha.

A votação decorreu entre a uma e as três horas da tarde de cá e durante esse intervalo de tempo estive quase sempre a fazer figas. De tal maneira que, nessa noite, quando estava a ver televisão, sem sequer pensar nisto, quando dei por mim tinha os dedos cruzados. Rezava constantemente, sem destinatário específico, por um resultado a nosso favor. "Portugal e Espanha... Vá lá... Nós temos História, temos prestígio, temos infraestruturas... O outro até disse que podíamos acolher um Mundial no mês que vem..." Nessa altura não o sabia, mas o facto de já termos prestígio e de já estarmos bem equipados, longe de nos ajudar, acabaria por jogar contra nós.

À medida que a hora prevista para o anúncio se aproximava, os meus nervos aumentavam a uma escala exponencial. Tinha aulas teóricas das duas às quatro, mas escusado será dizer que pouca atenção prestei, Que diabo, não é todos os dias que temos a possibilidade de vir a organizar um Mundial!

Quando faltavam quinze minuto para as três da tarde, liguei o rádio do meu leitor de MP3. Até às três, os locutores foram dando curiosidades tais como:


  • Tinham passado 4068 dias desde 11 de Outubro de 1999, dia em que soubemos que o Euro 2004 seria disputado no nosso País.
  • Este será o 21º Campeonato do Mundo
  • Em Zurique estavam presentes mil jornalistas e as câmaras de setenta cadeias de televisão.
Já na altura diziam para termos "cuidado com a Rússia", a "Candidatura Mistério" conforme apelidou Gilberto Madaíl. Confesso que só ao longo desse dia é que considerei a Rússia como uma adversária ameaçadora, tinha mais medo da Inlglaterra. A Bélgica-e-Holanda é que, supostamente, ficariam arrumadas logo deste início. Mas tudo podia acontecer... E afinal de contas, a Inglaterra acabou por ser despachada primeiro.


Muito comentada era a ausência de Vladimir Putin. Se isso afectaria de maneira positiva ou negativa a escolha. Pela parte que me tocava, não percebia o interesse daquilo. Não me parecia plausível que fossem escolher um determinado candidato só porque o Primeiro-Ministro estava presente ou ausente da cerimónia. E ainda acredito que não foi por isso que a Rússia ganhou.

Às três horas, estava à espera de ouvir o anúncio do vencedor a qualquer momento, mas aparentemente a cerimónia nem sequer havia começado. Os locutores da rádio diziam que as pessoas não se sentavam, apesar dos repetidos pedidos para que o fizessem.

Os minutos passavam e os meus nervos aumentavam. As minhas mãos tremiam, o meu estômago andava às voltas, eu mordia os nós dos dedos para não gritar. Os locutores diziam que este atraso não era normal e eu interrogava-me o que é que significaria? Seria bom ou mau? Significaria que a votação estava atrasada? Que não se conseguiam decidir? Nós ainda estaríamos em jogo? Ou já teríamos sido postos de parte?

"Por amor de Deus, despachem-se", rezava eu.

Para passar o tempo, a Antena1 ia entrevistando algumas personalidades que enumeravam os nossos pontos fortes. O que não ajudava.

Tal como não ajudou eles começarem a relatar algum pessimismo reinando na comitiva luso-espanhola. Os locutores aproveitaram esse momento para lembrar que Joseph Blatter não estava muito entusiasmado com a ideia de um Mundial organizado a dois. Deixaram ainda bem claro que uma candidatura não ganharia sem a sua aprovação. Eu interrogava-me se ele poderia recusar um vencedor, mesmo que tivesse sido eleito com toda a justiça. E ia ganhando uma certa raiva ao pobre homenzinho, por isto e por prolongar o meu sofrimento. O optimismo não me ajudava, o pessimismo não me ajudava. A única coisa que me ajudava era saber quem era o maldito vencedor.

Só que ainda tínhamos de esperar mais um bocado, de sofrer mais um bocado. Mais ou menos às três e um quarto até os locutores estavam a ficar nervosos. Que se estaria a passar?

Às três e vinte, a "Marca" anunciou na Internet que os vencedores eram a Rússia e o Qatar (para o Mundial 2022). Ainda gostava de saber como o descobriram. Talvez um dos membros do comité os tivesse informado... Na altura não liguei muito, pensando que seria apenas especulação. Mantive-me fiel à máxima "Até ao apito final". Neste caso, tal como já havia sido dito por outros, o "apito final" era uma metáfora para o anúncio do vencedor.

A cerimónia começou às três e vinte e cinco, mais coisa menos coisa, mas teríamos de esperar uns sete minutos até Joseph Blatter subir ao palco, mais uns dez até sabermos quem ganharia. Nesse momento, reparei que uma rapariga sentada algumas cadeiras em frente a mim tinha o portátil no SAPO. Talvez também  a tentar saber o vencedor. Ao menos não era a única interessada no anfiteatro.

Joseph Blatter subiu ao palco às três e meia, mais ou menos, mas ainda esteve alguns minutos a discursar. Ele é um político, já os locutores o diziam, não podia ser de outra maneira. Só que eu, nessa altura, estava à beira de um colapso com os nervos e só pedia mentalmente "Ó homem, corta-me na retórica e diz quem raio ganhou!"

Ele lá recebeu o envelope e anunciou o vencedor: a Rússia. Minutos depois, anunciaria o Qatar como vencedor da Organização do Mundial de 2022. Mais tarde, saber-se-ia que a Inglaterra havia caído à primeira ronda da votação e que, na segunda ronda, a nossa candidatura obtivera sete votos, ficando em segundo lugar, contra os treze votos da Rússia e os dois da Bélgica-e-Holanda.

- Vamos para novos territórios - afirmou Joseph Blatter, justificando deste modo as escolhas feitas. Ainda no rescaldo, eu pensava que aquilo era o resultado de jogos de bastidores, que a Rússia e o Qatar têm poder económico e nós e nuestros hermanos estamos à beira da falência., que Blatter tinha sido casmurro com aquela das candidaturas a dois. E ainda penso assim. 

O Bruno, um colega meu, disse que a Espanha devia ter concorrido sozinha. Nós é que nunca poderíamos organizar um Mundial a solo, nem nos nossos sonhos mais loucos e muito menos nesta altura do campeonato.

Mas agora vejo que eles vão fazer com a Rússia e com o Qatar o que fizeram connosco. Ou melhor o que a UEFA fez connosco. A FIFA está a dar uma oportunidade a países relativamente sem grande História futebolística (eu nem sequer tinha ouvido falar do Qatar antes!) e sem grande tradição na organização de eventos desportivos.

Nós já tivemos a nossa oportunidade e, apesar de muitas (mas mesmo muitas) coisas terem sido mal feitas, acho que não a aproveitámos nada mal. A Espanha também já organizou um Europeu e um Mundial, mas acabou por perder mais já que já antes havia perdido a Organização do Euro 2004 e dos Jogos Olímipicos de 2012. Nós já acolhemos o Europeu à bem pouco tempo, não nos podemos queixar de que ninguém-gosta-de-nós. E sinto-me grata por, na minha curta existência, já ter tido um Campeonato Europeu no meu País, por ter tido idade suficiente para o recordar (apresar de não a ter tido que chegue para o valorizar na sua totalidade). Por ter tido oportunidade de assistir a um jogo, de festejar nas ruas e de ter ido atrás do Autocarro na Selecção no dia da final.

Os mal-dispostos crónicos do costume, aqueles que se queixam constantemente da nossa medíocridade sem mexerem uma palha para mudar a situação, vieram dizer que o facto de não termos conseguido é uma vitória e merece ser comemorada. O trabalho de não sei quantas pessoas, não sei quantos portugueses, não ter dado em nada merece ser comemorado... Dizem que ainda hoje pagamos a conta do Euro 2004.  Até têm razão neste último aspecto. É, de facto, uma pena estádios como o do Algarve e o de Aveiro não serem melhor aproveitados. Mas também ainda hoje usufruímos do prestígio que ganhámos com o Europeu.

Gilberto Madaíl e os restantes responsáveis da Federação podem ter muitos defeitos, podem ter cometido muitos e graves erros nos últimos tempos, mas ao menos tentaram fazer alguma coisa para elevar o prestígio de Portugal aos olhos do Mundo. Mesmo que fosse uma insignificância comparado com Espanha. Mesmo que fosse "apenas" futebol. Ao menos tentaram desafiar o Destino, contrariar os rótulos que tantas vezes colocamos sobre o nosso País e respectivo povo. Como diria Fernando Pessoa, "Louco, sim, louco, porque  quis grandeza/Qual a Sorte não a dá". E por isso merecem o meu sincero agradecimento.

Esta não será a última oportunidade que tivemos, se Deus quiser. Ainda haverá muito Mundial a precisar de um anfitrião ou anfitriões. Espero, portanto, que seja considerada a hipótese de tentarmos de novo. Mas, a acontecer, será num futuro distante. Pode ser que, nessa altura, estejamos melhor em termos económicos e financeiros (vai sonhando...) e que tenhamos já no currículo um ou outro título... Nunca se sabe...
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