domingo, 29 de maio de 2016

Galvanizados

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Hoje, a Seleção Portuguesa de Futebol enfrenta a sua congénere norueguesa no Estádio do Dragão, num jogo de carácter preparatório para o Campeonato Europeu da Modalidade, que começa daqui a menos de duas semanas em França. Estamos, aliás, no fim da primeira semana de estágio de preparação para esse mesmo campeonato.


 


Conforme estava previsto, estes primeiros dias da Operação Euro 2016 decorreram em regime livre. Os jogadores foram-se juntando ao grupo aos poucos - um aplauso para Marmanjos como Ricardo Quaresma e Eliseu, que fizeram questão de vir antes dos dias a que estavam obrigados (ainda há amor à camisola) - embora continuem a faltar Nani e Bruno Alves (que chegam amanhã) e Pepe e Cristiano (que só vêm depois do jogo com a Inglaterra. 


 


Já repararam que os adversários dos jogos de preparação para o Euro são mais difíceis do que os adversários da fase de grupos? Bem, mais ou menos. A Inglaterra é que eleva muito a média de qualidade e, na minha cabeça, a Noruega é melhor que equipas como a Áustria e a Islândia. Uma ideia errónea, visto que os noruegueses nem sequer se Qualificaram para este Europeu. O nosso historial com a Noruega é positivo, tirando aquele malfadado jogo de 2010, em plena crise Queiroz, a nossa única derrota perante os nórdicos. O nosso último jogo com eles decorreu em 2011. Ganhámos por 1-0, golo de Hélder Postiga, embora a nossa exibição não tenha sido brilhante (era fim de época...). Visto não se terem Qualificado para o Europeu, a Noruega está neste momento a passar por uma fase de renovação e um dos seus maiores destaques é Martin Odegaard, o menino-prodígio que se juntou ao Real Madrid aos 16 anos (por outras palavras, o Renato Sanches dos noruegueses... mais ou menos). Segundo Fernando Santos, este adversário foi escolhido porque os noruegueses têm um estilo de jogo muito parecido com o da Islândia. 


 


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Não estou à espera de um jogo de qualidade. Para além de já ser tradição os primeiros jogos destes estágios terminarem sem golos, com exibições fracas, o facto de o estágio ter sido muito soft até agora, com os jogadores chegando em alturas diferentes aos treinos e ainda faltando quatro dos mais importantes, não dá grandes garantias. A vantagem da ausência de Cristiano Ronaldo é o facto de podermos ver como a Seleção funciona (ou não...) sem a sua maior referência. No entanto, se o resultado não for brilhante (e não é provável que o seja), já estou a ver o povo todo a atirar-se ao ar, a dizer que a Seleção não é nada sem Ronaldo - esquecendo-se que, em 2012, no particular com a Macedónia ter Ronaldo a jogar não nos serviu de nada. Como sempre, o importante é fazer experiências, afinar estratégias,. Dificilmente este jogo ficará na História, de qualquer forma. 


 


No meio disto tudo, já começaram as campanhas publicitárias dos patrocinadores da Seleção. Tal como referi antes, apesar de saber perfeitamente que os propósitos destas campanhas são maioritariamente comerciais, esta continua a ser uma da minhas partes preferidas de um campeonato de seleções. E, afinal de contas, todos beneficiarão se Portugal ganhar o Europeu.


 


Um aspeto curioso das campanhas deste ano é o facto de quase todas terem uma mensagem comum: uma declaração de Fernando Santos aquando do Anúncio dos Convocados: "se conseguirmos se 11 jogadores com 11 milhões a apoiar, será o ideal" (eu era capaz de jurar que a população portuguesa era de 10 milhões, mas adiante). Não me admiraria se tivessem sido as equipas de marketing da Federação a sugerir a frase ao nosso Selecionador. Por outro lado, gosto este lema, faz lembrar o Onze Por Todos de 2012.


 



 


O meu anúncio preferido é capaz de ser o da Sagres. Eu não escolheria o Ricardo Araújo Pereira para protagonizar uma campanha de apoio à Seleção (lembro-me de ler um artigo de opinião dele há já vários anos em que ele dizia que não ligava à Turma das Quinas, pelo menos não tanto como ao seu Benfica), mas a verdade é que o seu humor típico deu origem a um anúncio muito original. Quase uma paródia das campanhas habituais. Eles até recorreram ao tema Heart of Courage, dos Two Steps From Hell, que é a música a que todos recorrem quando procuram algo épico - já tinha sido usada num vídeo do Euro 2012. Tudo isto vale a possível incoerência.


 


Também gostei do anúncio da MEO, em que Cristiano Ronaldo vai ter com pessoas comuns, adeptos comuns, e coloca-lhes a braçadeira de Capitão (pena é eu nunca estar lá para estas coisas... Cristiano, quando é assim, manda-me mensagem antes!). 


 


Por outro lado, não gosto mesmo nada do anúncio do Continente. Ficou demasiado melodramático, nota-se que se esforçaram demasiado por parecerem épicos.


 



 


Vou recuperar aqui uma tradição do blogue, que é falar de música de apoio à Equipa de Todos Nós. Dos criadores do Hino Seleção 2012, este ano temos o... bem, o Hino Seleção 2016 (já tínhamos tido outro em 2014). Este tema não é muito diferente do de 2012, pelo menos não em termos de sonoridade. Aquilo que mais gosto nesta canção é a sua melodia - de tal forma que esta música tem versões com guitarra eléctrica, acordeão e um remix e soa espetacular em todas - e sobretudo da interpretação de Tó Zé, o vocalista. A sério, já ouviram falar em eargasms? Foi o que eu tive quando ouvi a interpretação dele pela primeira vez.


 


Fica aqui a letra:


 


Em França vamos jogar


Jogamos de coração


Vamos todos apoiar


Portugal e a seleção


As vozes estão no ar


Gritam vivas à nação


Portugal a festejar


Juntos em multidão


 


Allez Portugal,


Allez Seleção,


Allez Portugal,


Nosso campeão


Allez Portugal,


Allez Seleção,


Allez Portugal,


Nosso campeão


 


Um grito de campeão


Pelas ruas de Paris


Um fado tocado


Num canto feliz


Tudo animado


Neste País


Grito com vontade


Grito de ambição


Com muita vaidade


Allez Seleção,


Allez Portugal


Nosso campeão


 


Sem Título.png


  


Chegamos, por fim, àquele que dizem ser o cântico oficial da Seleção. Quando vi o vídeo abaixo pela primeira vez, com excertos do hino, fiquem de queixo caído. Não estava à espera que convertessem Tudo o Que Eu te Dou num cântico de apoio à Equipa de Todos Nós.


 


Por incrível que pareça, mas eu já associava parcialmente a música original a Cristiano Ronaldo e à Seleção - se não acreditam, poder ir ao meu outro blogue ler o texto que escrevi sobre o tema em 2012. Na verdade, foi com outro anúncio relacionado com a Seleção que isso começou - este, do BES, que rodava pouco antes do Euro 2004. Segue um excerto do texto sobre Tudo o Que Eu te Dou, a música original: 


 


"Acreditem ou não, já na altura, consideravelmente antes do Euro 2004, já no tempo em que o jogador madeirense dava os primeiros passos no Sporting, eu sabia que ele seria algo grande. E vejam só, passados todos estes anos, onde está ele! É aqui que entra o refrão de Tudo O Que Eu Te Dou: "Tudo o que eu sonhei, tu serás assim". Além disso, ao longo destes anos todos como fervorosa adepta da Equipa de Todos Nós, Cristiano Ronaldo tem ajudado a Seleção, direta ou indiretamente, a dar-me alegrias, permitindo-me colecionar várias boas recordações. "Tudo o que eu te dou, tu me dás a mim" Por muitos defeitos que ele possa ter, ainda que, de vez em quando, ele e os colegas nos desiludam, como fizeram esta semana, [este texto foi publicado poucos dias após este jogo] este mérito ninguém lhe pode tirar."


 



 


 


Ainda que uma parte significativa de mim não esteja propriamente satisfeita por terem alterado uma letra original tão bonita, a verdade é que esta nova versão explora a mensagem que há muito atribuí ao tema original. Há quem reclame, naturalmente, mas se as claques do Sporting podem adotar um clássico de uma das maiores lendas da música internacional, a Seleção também pode adotar um clássico da música portuguesa, ainda por cima com autorização expressa e interpretação do próprio autor original.


 


Estou convencida, aliás, que a Federação quis precisamente a sua versão d'O Mundo Sabe Que para a Equipa de Todos Nós. O próprio Pedro Abrunhosa deu-o a entender, em entrevista à TVI24, quando disse que a Federação queria "um cântico pausado", "que as pessoas conhecessem de raiz", chegando a referir a clássica "You'll Never Walk Alone", do Liverpool. Consta mesmo que a Federação planeia pôr a música a tocar já hoje, no jogo com a Noruega. Duvido que admitam a influência, por razões óbvias, mas estou convencida. 


 


E não digo que tenha sido uma má ideia, bem pelo contrário. Já vi o cântico O Mundo Sabe Que entoado por milhares em Alvalade e achei lindo. Por mim, todos os clubes de futebol teriam o seu cântico pausado, a ser entoado por todo o público antes do início de cada jogo. Estou feliz por, aparentemente, o meu clube ter arranjado o seu. Pode ser desta que o desejo de Cristiano Ronaldo em 2012 se realize.


 


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Segundo Pedro Abrunhosa, a versão final de estúdio ainda está em processo de mistura. Ele entretanto interpretou a música inteira na TVI, como poderão ver aqui. Mesmo que a música não pegue como cântico oficial (a Federação está a esforçar-se), Tudo O Que Eu te Dou, Somos Portugal já tem lugar reservado na minha playlist.


 


Na mesma entrevista Abrunhosa diz que o futebol e a música são ambas capazes de "galvanizar as pessoas - neste caso um País - por uma causa em comum". Uma afirmação com a qual concordo plenamente. Não é por acaso que o futebol e a música se encontram entre as minhas paixões, que jogos e concertos sejam os meus eventos preferidos, que a música tenha sempre feito parte da minha relação com a Equipa de Todos Nós. Nota-se que está a ser feito um esforço para agregar o povo em torno da Seleção, que os jogadores e a Federação levam a sério as ambições de Fernando Santos. Como sempre, o meu desejo é que tudo isto, todos estes anúncios, músicas, declarações, etc, nos galvanizem a todos de modo a termos um bom desempenho em França. Que culmine, preferencialmente, com o título que nos escapa há demasiado tempo.

Galvanizados

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Hoje, a Seleção Portuguesa de Futebol enfrenta a sua congénere norueguesa no Estádio do Dragão, num jogo de carácter preparatório para o Campeonato Europeu da Modalidade, que começa daqui a menos de duas semanas em França. Estamos, aliás, no fim da primeira semana de estágio de preparação para esse mesmo campeonato.


 


Conforme estava previsto, estes primeiros dias da Operação Euro 2016 decorreram em regime livre. Os jogadores foram-se juntando ao grupo aos poucos - um aplauso para Marmanjos como Ricardo Quaresma e Eliseu, que fizeram questão de vir antes dos dias a que estavam obrigados (ainda há amor à camisola) - embora continuem a faltar Nani e Bruno Alves (que chegam amanhã) e Pepe e Cristiano (que só vêm depois do jogo com a Inglaterra. 


 


Já repararam que os adversários dos jogos de preparação para o Euro são mais difíceis do que os adversários da fase de grupos? Bem, mais ou menos. A Inglaterra é que eleva muito a média de qualidade e, na minha cabeça, a Noruega é melhor que equipas como a Áustria e a Islândia. Uma ideia errónea, visto que os noruegueses nem sequer se Qualificaram para este Europeu. O nosso historial com a Noruega é positivo, tirando aquele malfadado jogo de 2010, em plena crise Queiroz, a nossa única derrota perante os nórdicos. O nosso último jogo com eles decorreu em 2011. Ganhámos por 1-0, golo de Hélder Postiga, embora a nossa exibição não tenha sido brilhante (era fim de época...). Visto não se terem Qualificado para o Europeu, a Noruega está neste momento a passar por uma fase de renovação e um dos seus maiores destaques é Martin Odegaard, o menino-prodígio que se juntou ao Real Madrid aos 16 anos (por outras palavras, o Renato Sanches dos noruegueses... mais ou menos). Segundo Fernando Santos, este adversário foi escolhido porque os noruegueses têm um estilo de jogo muito parecido com o da Islândia. 


 


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Não estou à espera de um jogo de qualidade. Para além de já ser tradição os primeiros jogos destes estágios terminarem sem golos, com exibições fracas, o facto de o estágio ter sido muito soft até agora, com os jogadores chegando em alturas diferentes aos treinos e ainda faltando quatro dos mais importantes, não dá grandes garantias. A vantagem da ausência de Cristiano Ronaldo é o facto de podermos ver como a Seleção funciona (ou não...) sem a sua maior referência. No entanto, se o resultado não for brilhante (e não é provável que o seja), já estou a ver o povo todo a atirar-se ao ar, a dizer que a Seleção não é nada sem Ronaldo - esquecendo-se que, em 2012, no particular com a Macedónia ter Ronaldo a jogar não nos serviu de nada. Como sempre, o importante é fazer experiências, afinar estratégias,. Dificilmente este jogo ficará na História, de qualquer forma. 


 


No meio disto tudo, já começaram as campanhas publicitárias dos patrocinadores da Seleção. Tal como referi antes, apesar de saber perfeitamente que os propósitos destas campanhas são maioritariamente comerciais, esta continua a ser uma da minhas partes preferidas de um campeonato de seleções. E, afinal de contas, todos beneficiarão se Portugal ganhar o Europeu.


 


Um aspeto curioso das campanhas deste ano é o facto de quase todas terem uma mensagem comum: uma declaração de Fernando Santos aquando do Anúncio dos Convocados: "se conseguirmos se 11 jogadores com 11 milhões a apoiar, será o ideal" (eu era capaz de jurar que a população portuguesa era de 10 milhões, mas adiante). Não me admiraria se tivessem sido as equipas de marketing da Federação a sugerir a frase ao nosso Selecionador. Por outro lado, gosto este lema, faz lembrar o Onze Por Todos de 2012.


 



 


O meu anúncio preferido é capaz de ser o da Sagres. Eu não escolheria o Ricardo Araújo Pereira para protagonizar uma campanha de apoio à Seleção (lembro-me de ler um artigo de opinião dele há já vários anos em que ele dizia que não ligava à Turma das Quinas, pelo menos não tanto como ao seu Benfica), mas a verdade é que o seu humor típico deu origem a um anúncio muito original. Quase uma paródia das campanhas habituais. Eles até recorreram ao tema Heart of Courage, dos Two Steps From Hell, que é a música a que todos recorrem quando procuram algo épico - já tinha sido usada num vídeo do Euro 2012. Tudo isto vale a possível incoerência.


 


Também gostei do anúncio da MEO, em que Cristiano Ronaldo vai ter com pessoas comuns, adeptos comuns, e coloca-lhes a braçadeira de Capitão (pena é eu nunca estar lá para estas coisas... Cristiano, quando é assim, manda-me mensagem antes!). 


 


Por outro lado, não gosto mesmo nada do anúncio do Continente. Ficou demasiado melodramático, nota-se que se esforçaram demasiado por parecerem épicos.


 



 


Vou recuperar aqui uma tradição do blogue, que é falar de música de apoio à Equipa de Todos Nós. Dos criadores do Hino Seleção 2012, este ano temos o... bem, o Hino Seleção 2016 (já tínhamos tido outro em 2014). Este tema não é muito diferente do de 2012, pelo menos não em termos de sonoridade. Aquilo que mais gosto nesta canção é a sua melodia - de tal forma que esta música tem versões com guitarra eléctrica, acordeão e um remix e soa espetacular em todas - e sobretudo da interpretação de Tó Zé, o vocalista. A sério, já ouviram falar em eargasms? Foi o que eu tive quando ouvi a interpretação dele pela primeira vez.


 


Fica aqui a letra:


 


Em França vamos jogar


Jogamos de coração


Vamos todos apoiar


Portugal e a seleção


As vozes estão no ar


Gritam vivas à nação


Portugal a festejar


Juntos em multidão


 


Allez Portugal,


Allez Seleção,


Allez Portugal,


Nosso campeão


Allez Portugal,


Allez Seleção,


Allez Portugal,


Nosso campeão


 


Um grito de campeão


Pelas ruas de Paris


Um fado tocado


Num canto feliz


Tudo animado


Neste País


Grito com vontade


Grito de ambição


Com muita vaidade


Allez Seleção,


Allez Portugal


Nosso campeão


 


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Chegamos, por fim, àquele que dizem ser o cântico oficial da Seleção. Quando vi o vídeo abaixo pela primeira vez, com excertos do hino, fiquem de queixo caído. Não estava à espera que convertessem Tudo o Que Eu te Dou num cântico de apoio à Equipa de Todos Nós.


 


Por incrível que pareça, mas eu já associava parcialmente a música original a Cristiano Ronaldo e à Seleção - se não acreditam, poder ir ao meu outro blogue ler o texto que escrevi sobre o tema em 2012. Na verdade, foi com outro anúncio relacionado com a Seleção que isso começou - este, do BES, que rodava pouco antes do Euro 2004. Segue um excerto do texto sobre Tudo o Que Eu te Dou, a música original: 


 


"Acreditem ou não, já na altura, consideravelmente antes do Euro 2004, já no tempo em que o jogador madeirense dava os primeiros passos no Sporting, eu sabia que ele seria algo grande. E vejam só, passados todos estes anos, onde está ele! É aqui que entra o refrão de Tudo O Que Eu Te Dou: "Tudo o que eu sonhei, tu serás assim". Além disso, ao longo destes anos todos como fervorosa adepta da Equipa de Todos Nós, Cristiano Ronaldo tem ajudado a Seleção, direta ou indiretamente, a dar-me alegrias, permitindo-me colecionar várias boas recordações. "Tudo o que eu te dou, tu me dás a mim" Por muitos defeitos que ele possa ter, ainda que, de vez em quando, ele e os colegas nos desiludam, como fizeram esta semana, [este texto foi publicado poucos dias após este jogo] este mérito ninguém lhe pode tirar."


 



 


 


Ainda que uma parte significativa de mim não esteja propriamente satisfeita por terem alterado uma letra original tão bonita, a verdade é que esta nova versão explora a mensagem que há muito atribuí ao tema original. Há quem reclame, naturalmente, mas se as claques do Sporting podem adotar um clássico de uma das maiores lendas da música internacional, a Seleção também pode adotar um clássico da música portuguesa, ainda por cima com autorização expressa e interpretação do próprio autor original.


 


Estou convencida, aliás, que a Federação quis precisamente a sua versão d'O Mundo Sabe Que para a Equipa de Todos Nós. O próprio Pedro Abrunhosa deu-o a entender, em entrevista à TVI24, quando disse que a Federação queria "um cântico pausado", "que as pessoas conhecessem de raiz", chegando a referir a clássica "You'll Never Walk Alone", do Liverpool. Consta mesmo que a Federação planeia pôr a música a tocar já hoje, no jogo com a Noruega. Duvido que admitam a influência, por razões óbvias, mas estou convencida. 


 


E não digo que tenha sido uma má ideia, bem pelo contrário. Já vi o cântico O Mundo Sabe Que entoado por milhares em Alvalade e achei lindo. Por mim, todos os clubes de futebol teriam o seu cântico pausado, a ser entoado por todo o público antes do início de cada jogo. Estou feliz por, aparentemente, o meu clube ter arranjado o seu. Pode ser desta que o desejo de Cristiano Ronaldo em 2012 se realize.


 


02.jpg


 


Segundo Pedro Abrunhosa, a versão final de estúdio ainda está em processo de mistura. Ele entretanto interpretou a música inteira na TVI, como poderão ver aqui. Mesmo que a música não pegue como cântico oficial (a Federação está a esforçar-se), Tudo O Que Eu te Dou, Somos Portugal já tem lugar reservado na minha playlist.


 


Na mesma entrevista Abrunhosa diz que o futebol e a música são ambas capazes de "galvanizar as pessoas - neste caso um País - por uma causa em comum". Uma afirmação com a qual concordo plenamente. Não é por acaso que o futebol e a música se encontram entre as minhas paixões, que jogos e concertos sejam os meus eventos preferidos, que a música tenha sempre feito parte da minha relação com a Equipa de Todos Nós. Nota-se que está a ser feito um esforço para agregar o povo em torno da Seleção, que os jogadores e a Federação levam a sério as ambições de Fernando Santos. Como sempre, o meu desejo é que tudo isto, todos estes anúncios, músicas, declarações, etc, nos galvanizem a todos de modo a termos um bom desempenho em França. Que culmine, preferencialmente, com o título que nos escapa há demasiado tempo.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Os Eleitos

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Na passada terça-feira, dia 17 de maio, na Cidade do Futebol, Fernando Santos divulgou os vinte e três Eleitos para representar Portugal no Euro 2016. 


 


Ao contrário de Convocatórias anteriores, não houve grande cerimónia na apresentação dos vinte e três nomes: o Selecionador leu a lista e passou de imediato às perguntas e respostas. Eu prefiro assim. Geralmente quando existe demasiada pompa e circunstância no momento da Convocatória - isto é, quando Selecionador e Federação se levam demasiado a sério - a coisa acaba por correr mal. Não sei se as duas coisas estão diretamente relacionadas, mas foi o que aconteceu em 2010 e 2014.


 


Dito isto, gosto imenso do vídeo que a Federação partilhou nas redes sociais. Vejam abaixo.


 



 


Conforme muitos têm expectado, esta é uma convocatória expectável, coerente com os princípios por que Fernando Santos se tem regido enquanto Selecionador. Vários têm dito que não há "surpresas", apenas uma "novidade" chamada Renato Sanches. Pessoalmente, eu não diria que a Eleição do jovem é uma novidade - ele já tinha sido Convocado para a última dupla jornada de particulares. Renato beneficia da lesão muito recente de Bernardo Silva, que terá facilitado as Escolhas de Fernando Santos. Há quem diga que a Chamada de Renato não faz assim tanto sentido, que teria sido melhor Convocar Pizzi, por exemplo. Para ser sincera, contudo, se Renato tivesse sido deixado de fora, mesmo que por motivos legítimos, metade do país atirar-se-ia ao ar. Depois de o Benfica se ter sagrado campeão? Depois de Renato se ter transferido para o Bayern de Munique? Não Convocá-lo daria direito a cadeira elétrica!


 


Eu continuo sem saber se Renato será capaz de lidar com esta pressão toda. Quer da parte dos apoiantes, que já vêm a Seleção como Renato-mais-dez, quer da parte dos adversários, incapazes de ultrapassar as suas azias clubísticas De qualquer forma, Renato dificilmente será titular, pelo menos não nos primeiros jogos. Talvez isso lhe alivie a pressão.


 


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Entretanto, Fábio Coentrão lesionou-se há cerca de um mês e não recupera a tempo do Europeu, o que me deixa de coração partido. Em campeonatos de seleções ele tem sido um dos preferidos, muito graças à sua constante irreverência e inconformismo. O Euro 2016 não será o mesmo sem ele. A única coisa boa que deriva da lesão dele é ter permitido a Convocatória de Raphael Guerreiro. Não vou reclamar muito contra a Convocatória de Eliseu porque ele tem feito um bom trabalho no Benfica - destaque para a assistência perfeita para o golo de Jiménez, contra o Bayern. No entanto, vou fazer figas para que Guerreiro seja titular, que ele na Seleção tem jogado melhor que Eliseu.


 


Outro Marmanjo a quem vou dar o benefício da dúvida é Éder. Concordo com a opinião geral de que existe por aí muito ponta-de-lança mais merecedor de um lugar no Euro: Hugo Vieira, Bruno Moreira, André Silva... Eh pá, até Hélder Postiga seria melhor, já que ele até tem marcado várias vezes pelo seu clube e tem golos em três Europeus. Dito isto tudo, Éder tem passado por um bom momento no seu clube, o Lille. Esta não é, portanto, a pior altura para Convocar o avançado. E como de qualquer forma a tática principal dispensará ponta-de-lança, não há de fazer muita diferença.


 


Mas se este Europeu passar e ele continuar sem meter a bola na baliza, por favor, Chamem outro ponta-de-lança para a Qualificação para o Mundial 2018!


 


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Tirando isto que acabo de referir, não acho que existam grandes motivos de contestação a esta Convocatória. Pode haver quem discorde de mim, evidentemente, mas, até agora, não tenho encontrado objeções relevantes. Isto costuma ser bom sinal - foi-o em 2012. Na minha opinião, a Convocatória é boa, melhor que há dois anos, mas também, como escrevi na entrada anterior, o mais importante é todos chegarem em boas condições físicas a França, que o que se passou no Brasil foi uma tragicomédia.


 


Tenho, aliás, tido alguns flashbacks de 2014 nos últimos tempos por causa das lesões com que Cristiano Ronaldo se tem debatido. O facto de o Real Madrid se ter qualificado para a final da Liga dos Campeões (o que obriga Pepe e Cristiano a faltarem à primeira semana do estágio - mais sobre isso adiante) não ajudou. Vou ser sincera, estive muito perto de torcer pelo Manchester City, só para Cristiano e Pepe não se desgastarem com um jogo de grande intensidade. No entanto, no decurso do jogo das meias, não fui capaz de torcer contra eles. Fernando Santos garante que Ronaldo estará "na sua melhor forma"  no Europeu, que "está a preparar-se física e mentalmente" para isso, que tem "uma ambição muito forte" relativamente a este campeonato. Não que não acredite nele, mas... também se dizia isto aquando do Mundial 2014. De qualquer forma, a situação não me parece tão grave este ano. Vou esperar que corra tudo pelo melhor desta vez. E já que ele e Pepe estão na final da Liga dos Campeões... que a ganhem. 


 


A verdade é que, este ano, o calendário futebolístico está muito estranho. A final da Champions decorre apenas um dia antes do nosso particular com a Noruega. Isto faz-me imensa confusão: estou habituada a ter datas para jogos de clubes e datas para jogos de seleções bem definidas e separadas. De repente colocarem os particulares das seleções no mesmo fim de semana que a final da Champions é demasiado amadorismo para o meu gosto (falarei melhor sobre estes jogos num futuro texto).


 


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Com tudo isto, o estágio só começa oficialmente na próxima segunda-feira, dia 23 de maio. Só treze jogadores começam no primeiro dia, os restantes virão às pinguinhas ao longo do resto da semana. Por esses dias, o estágio vai ser mais soft, semelhante ao dia-a-dia de um clube: os Marmanjos vêm de manhã e regressam a casa no fim do dia, depois dos treinos. No dia 30 é que a Seleção começa a estar em regime de "internato", ainda que com dias e noites de folga, evidentemente.


 


Como tal, visto que ainda temos alguns dias e vários jogos de clubes até a Seleção se reunir de novo, vou esperar até segunda-feira para pendurar a bandeira à janela. Este ano vai para o quarto da minha irmã em vez do meu, que agora temos uma cadela e ela gosta de espreitar pela minha janela. Em compensação, estou a pensar arranjar-lhe um cachecol ou uma bandeira mais pequena para ela usar nos jogos do Europeu: mais ou menos assim.


 


Gostei de ouvir Fernando Santos agradecendo aos jogadores que ajudaram a garantir o Apuramento, mas que não foram Convocados. Fica bem a gratidão. Por outro lado, voltando a pegar no assunto do meu texto anterior, Fernando Santos reiterou a ambição de ganhar o Europeu. "Não é uma questão de fé, é uma questão de acreditar.", disse ele, o que remonta para aquilo que escrevi sobre a diferença entre um sonho e uma ambição. Disse também que Portugal, não sendo favorito, é capaz de "defrontar qualquer adversário" - algo com que todos concordam.


 


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Quanto a nós, é o costume: ao longo deste estágio, o meu coração estará sediado na Cidade do Futebol (espero que hajam treinos abertos e que dê para dar lá um saltinho) e, mais tarde, no Centro Nacional de Râguebi, em Marcoussis. Dentro das minhas possibilidades, manter-me-ei a par do que for acontecendo com a Seleção. Espero que este seja o início de uma caminhada memorável pelos melhores motivos.


 


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Os Eleitos

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Na passada terça-feira, dia 17 de maio, na Cidade do Futebol, Fernando Santos divulgou os vinte e três Eleitos para representar Portugal no Euro 2016. 


 


Ao contrário de Convocatórias anteriores, não houve grande cerimónia na apresentação dos vinte e três nomes: o Selecionador leu a lista e passou de imediato às perguntas e respostas. Eu prefiro assim. Geralmente quando existe demasiada pompa e circunstância no momento da Convocatória - isto é, quando Selecionador e Federação se levam demasiado a sério - a coisa acaba por correr mal. Não sei se as duas coisas estão diretamente relacionadas, mas foi o que aconteceu em 2010 e 2014.


 


Dito isto, gosto imenso do vídeo que a Federação partilhou nas redes sociais. Vejam abaixo.


 



 


Conforme muitos têm expectado, esta é uma convocatória expectável, coerente com os princípios por que Fernando Santos se tem regido enquanto Selecionador. Vários têm dito que não há "surpresas", apenas uma "novidade" chamada Renato Sanches. Pessoalmente, eu não diria que a Eleição do jovem é uma novidade - ele já tinha sido Convocado para a última dupla jornada de particulares. Renato beneficia da lesão muito recente de Bernardo Silva, que terá facilitado as Escolhas de Fernando Santos. Há quem diga que a Chamada de Renato não faz assim tanto sentido, que teria sido melhor Convocar Pizzi, por exemplo. Para ser sincera, contudo, se Renato tivesse sido deixado de fora, mesmo que por motivos legítimos, metade do país atirar-se-ia ao ar. Depois de o Benfica se ter sagrado campeão? Depois de Renato se ter transferido para o Bayern de Munique? Não Convocá-lo daria direito a cadeira elétrica!


 


Eu continuo sem saber se Renato será capaz de lidar com esta pressão toda. Quer da parte dos apoiantes, que já vêm a Seleção como Renato-mais-dez, quer da parte dos adversários, incapazes de ultrapassar as suas azias clubísticas De qualquer forma, Renato dificilmente será titular, pelo menos não nos primeiros jogos. Talvez isso lhe alivie a pressão.


 


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Entretanto, Fábio Coentrão lesionou-se há cerca de um mês e não recupera a tempo do Europeu, o que me deixa de coração partido. Em campeonatos de seleções ele tem sido um dos preferidos, muito graças à sua constante irreverência e inconformismo. O Euro 2016 não será o mesmo sem ele. A única coisa boa que deriva da lesão dele é ter permitido a Convocatória de Raphael Guerreiro. Não vou reclamar muito contra a Convocatória de Eliseu porque ele tem feito um bom trabalho no Benfica - destaque para a assistência perfeita para o golo de Jiménez, contra o Bayern. No entanto, vou fazer figas para que Guerreiro seja titular, que ele na Seleção tem jogado melhor que Eliseu.


 


Outro Marmanjo a quem vou dar o benefício da dúvida é Éder. Concordo com a opinião geral de que existe por aí muito ponta-de-lança mais merecedor de um lugar no Euro: Hugo Vieira, Bruno Moreira, André Silva... Eh pá, até Hélder Postiga seria melhor, já que ele até tem marcado várias vezes pelo seu clube e tem golos em três Europeus. Dito isto tudo, Éder tem passado por um bom momento no seu clube, o Lille. Esta não é, portanto, a pior altura para Convocar o avançado. E como de qualquer forma a tática principal dispensará ponta-de-lança, não há de fazer muita diferença.


 


Mas se este Europeu passar e ele continuar sem meter a bola na baliza, por favor, Chamem outro ponta-de-lança para a Qualificação para o Mundial 2018!


 


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Tirando isto que acabo de referir, não acho que existam grandes motivos de contestação a esta Convocatória. Pode haver quem discorde de mim, evidentemente, mas, até agora, não tenho encontrado objeções relevantes. Isto costuma ser bom sinal - foi-o em 2012. Na minha opinião, a Convocatória é boa, melhor que há dois anos, mas também, como escrevi na entrada anterior, o mais importante é todos chegarem em boas condições físicas a França, que o que se passou no Brasil foi uma tragicomédia.


 


Tenho, aliás, tido alguns flashbacks de 2014 nos últimos tempos por causa das lesões com que Cristiano Ronaldo se tem debatido. O facto de o Real Madrid se ter qualificado para a final da Liga dos Campeões (o que obriga Pepe e Cristiano a faltarem à primeira semana do estágio - mais sobre isso adiante) não ajudou. Vou ser sincera, estive muito perto de torcer pelo Manchester City, só para Cristiano e Pepe não se desgastarem com um jogo de grande intensidade. No entanto, no decurso do jogo das meias, não fui capaz de torcer contra eles. Fernando Santos garante que Ronaldo estará "na sua melhor forma"  no Europeu, que "está a preparar-se física e mentalmente" para isso, que tem "uma ambição muito forte" relativamente a este campeonato. Não que não acredite nele, mas... também se dizia isto aquando do Mundial 2014. De qualquer forma, a situação não me parece tão grave este ano. Vou esperar que corra tudo pelo melhor desta vez. E já que ele e Pepe estão na final da Liga dos Campeões... que a ganhem. 


 


A verdade é que, este ano, o calendário futebolístico está muito estranho. A final da Champions decorre apenas um dia antes do nosso particular com a Noruega. Isto faz-me imensa confusão: estou habituada a ter datas para jogos de clubes e datas para jogos de seleções bem definidas e separadas. De repente colocarem os particulares das seleções no mesmo fim de semana que a final da Champions é demasiado amadorismo para o meu gosto (falarei melhor sobre estes jogos num futuro texto).


 


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Com tudo isto, o estágio só começa oficialmente na próxima segunda-feira, dia 23 de maio. Só treze jogadores começam no primeiro dia, os restantes virão às pinguinhas ao longo do resto da semana. Por esses dias, o estágio vai ser mais soft, semelhante ao dia-a-dia de um clube: os Marmanjos vêm de manhã e regressam a casa no fim do dia, depois dos treinos. No dia 30 é que a Seleção começa a estar em regime de "internato", ainda que com dias e noites de folga, evidentemente.


 


Como tal, visto que ainda temos alguns dias e vários jogos de clubes até a Seleção se reunir de novo, vou esperar até segunda-feira para pendurar a bandeira à janela. Este ano vai para o quarto da minha irmã em vez do meu, que agora temos uma cadela e ela gosta de espreitar pela minha janela. Em compensação, estou a pensar arranjar-lhe um cachecol ou uma bandeira mais pequena para ela usar nos jogos do Europeu: mais ou menos assim.


 


Gostei de ouvir Fernando Santos agradecendo aos jogadores que ajudaram a garantir o Apuramento, mas que não foram Convocados. Fica bem a gratidão. Por outro lado, voltando a pegar no assunto do meu texto anterior, Fernando Santos reiterou a ambição de ganhar o Europeu. "Não é uma questão de fé, é uma questão de acreditar.", disse ele, o que remonta para aquilo que escrevi sobre a diferença entre um sonho e uma ambição. Disse também que Portugal, não sendo favorito, é capaz de "defrontar qualquer adversário" - algo com que todos concordam.


 


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Quanto a nós, é o costume: ao longo deste estágio, o meu coração estará sediado na Cidade do Futebol (espero que hajam treinos abertos e que dê para dar lá um saltinho) e, mais tarde, no Centro Nacional de Râguebi, em Marcoussis. Dentro das minhas possibilidades, manter-me-ei a par do que for acontecendo com a Seleção. Espero que este seja o início de uma caminhada memorável pelos melhores motivos.


 


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terça-feira, 17 de maio de 2016

Cheios d'a fé

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Esta noite, pelas oito horas e trinta minutos, o Selecionador Nacional Fernando Santos divulgará a Lista de Convocados para representar Portugal no Euro 2016.


 


Para quem acompanha o meu blogue há uns anos... bem, por um lado, obrigada do fundo do coração... mas por outro, estará farto de saber que eu considero o momento da Convocatória como o início do Europeu. Já é tradição eu dedicar uma entrada aqui do blogue a algumas reflexões de antecipação a esse início. No caso do próximo campeonato de seleções, este texto corresponde à altura certa para escrever sobre algo que tenho vindo a adiar há imenso tempo.


 


Há cerca de um ano, mais coisa menos coisa, Fernando Santos deu uma entrevista a um jornal desportivo qualquer (já não me lembro qual foi) em que disse que quer ser campeão da Europa com Portugal, que assumiu esse objetivo desde o seu primeiro dia como Selecionador. Para muitos, esta declaração era expectável, mesmo exigível, da parte de um Selecionador responsável por uma seleção que se tem mantido no top 10 do ranking da FIFA, de forma mais ou menos constante, nos últimos anos e que conta com um dos melhores jogadores da atualidade. Não estão errados. No entanto, quando li estas declarações pela primeira vez, tive uma mini-crise existencial. 


 


Eu desabituara-me a pensar assim há muitos anos. Já não assumia com todas as letras que queria o título. Não me atrevia a sonhar abertamente com isso. Habituara-me a pensar um jogo de cada vez e, de resto, o antigo Selecionador Paulo Bento também pensava assim (ao definir sempre como primeiro objetivo passar a fase de grupos). Era a opção segura. Sejamos realistas, todos os campeonatos de seleções têm acabado da mesma forma, mesmo que, nalguns deles, os desempenhos até tenham sido bons. Na altura destas primeiras declarações, aliás, a Qualificação para este Europeu ainda ia a meio e as últimas exibições da Equipa de Todos Nós não tinham sido brilhantes, mesmo tendo resultado em vitórias. O fraco desempenho no Mundial 2014 ocorrera menos de um ano antes, ainda estava fresco na memória. Eu não estava preparada para ouvir Fernando Santos falar assim, não estava preparada para voltar a acreditar desta forma. Ainda hoje, uma parte de mim pensa que estamos a sonhar um bocadinho alto de mais.


 


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A minha irmã resumiu bem a situação, há uns tempos. Vimos uma notícia sobre aquele que será o quartel-general português durante o Europeu, em França. Fernando Santos disse que tinha o centro de estágios reservado até dia 11 de julho, para Portugal poder jogar a final do Euro 2016 e festejar no dia seguinte. Em resposta a isto, a minha irmã disse qualquer coisa como:


 


- Bem, este 'tá chei'da fé!


 


É uma expressão que ela tem usado várias vezes ultimamente e que eu adoro.


 


Depois dessa entrevista há cerca de um ano, Fernando Santos foi reiterando várias vezes esta ambição de ganhar o Europeu e eu fui-me habituando à ideia, abrindo-me à possibilidade. O facto de termos concluído a Qualificação com os melhores número de sempre ajudou. Não garante nada, é certo, mas tal como disse na altura sete vitórias seguidas em jogos oficiais não são desprezáveis em circunstância alguma. Ao mesmo tempo, tem estado a surgir uma nova geração de jogadores, muito promissora - destaque óbvio para a equipa que chegou à final do Europeu de sub-21. O jogo com a Bélgica deixou bons sinais relativamente ao momento da Seleção, de resto. Em termos de qualidade do plantel, considero, portanto, que estamos um pouco melhor fornecidos que há dois anos, no Mundial 2014 - mas já será um enorme progresso se os vinte e três Escolhidos não se lesionarem.


 


Adicionalmente, por norma os Europeus costumam correr melhor a Portugal do que os Mundiais. Conseguimos sempre passar a fase de grupos do Euro. Além disso, em três edições do campeonato chegámos às meias-finais (em 1984, em 2000, em 2012) e, claro, em 2004 chegámos a final. A explicação possível é o facto de os jogadores e respetivas seleções nos serem mais familiares e, claro, por o clima não ser tão agreste como noutros sítios - por exemplo, o Brasil.


 


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Por fim, o facto de termos Cristiano Ronaldo é um dos maiores catalisadores desta nossa ambição. Como toda a gente sabe, ele já ganhou tudo, excepto um título pela Equipa de Todos Nós. Não deixará de ser inglório se ele terminar uma carreira, já de si extraordinária, mas com esse vazio. E visto que ele já passou a barreira dos 30 anos, está poderá ser a última oportunidade dele (embora eu tenha pensado mais ou menos o mesmo na altura do Mundial 2014).


 


Por isso, sim. Pela primeira vez em anos, neste Europeu não vou pensar apenas jogo a jogo. Pela primeira vez em anos, estou a assumir com todas as letras que quero Portugal campeão europeu. O título é o sonho, sempre o foi. Um sonho é algo irreal, fantasioso. O que o Selecionador fez - ao deixar o objetivo bem claro perante os jogadores no primeiro dia em que trabalhou com eles, ao recordar-lhes esse objetivo em todas as concentrações - foi transformá-lo numa ambição, num objetivo, em algo real, concreto e... assustador. Porque, ao se tornar real, torna-se também falível.


 


Espero que o Selecionador tenha noção do que nos está a pedir. Como escrevi antes, não é fácil voltar a acreditar depois do que aconteceu em 2014 - eu demorei meses. Fernando Santos não pode pedir-nos para voltarmos a acreditar se, depois, a Seleção fizer um Europeu para esquecer - assim vai doer ainda mais. Ele e os Marmanjos têm a responsabilidade de levarem essas ambições para o campo e jogarem para torná-las realidade. Não me quero arrepender de voltar a acreditar. 


 


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Ainda não sei de que forma estas ambições vão influenciar as comunicações com a Imprensa durante o estágio, se os Marmanjos vão dizer, preto no branco, que estão a trabalhar para ganhar o Europeu. Ainda não sabemos quem vai ao Euro, sequer (vamos descobrir hoje), nem se esse grupo terá o que é preciso para chegar lá (os particulares servirão para descobri-lo, com as devidas atenuantes). No entanto, vou assumir que Fernando Santos está a ser sincero, que sabe o que está a fazer e que os jogadores partilham a mesma ambição. Se assim for, poderemos todos - jogadores, Selecionador, restante equipa técnica, adeptos - partir para este Europeu cheios d'a fé.

Cheios d'a fé

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Esta noite, pelas oito horas e trinta minutos, o Selecionador Nacional Fernando Santos divulgará a Lista de Convocados para representar Portugal no Euro 2016.


 


Para quem acompanha o meu blogue há uns anos... bem, por um lado, obrigada do fundo do coração... mas por outro, estará farto de saber que eu considero o momento da Convocatória como o início do Europeu. Já é tradição eu dedicar uma entrada aqui do blogue a algumas reflexões de antecipação a esse início. No caso do próximo campeonato de seleções, este texto corresponde à altura certa para escrever sobre algo que tenho vindo a adiar há imenso tempo.


 


Há cerca de um ano, mais coisa menos coisa, Fernando Santos deu uma entrevista a um jornal desportivo qualquer (já não me lembro qual foi) em que disse que quer ser campeão da Europa com Portugal, que assumiu esse objetivo desde o seu primeiro dia como Selecionador. Para muitos, esta declaração era expectável, mesmo exigível, da parte de um Selecionador responsável por uma seleção que se tem mantido no top 10 do ranking da FIFA, de forma mais ou menos constante, nos últimos anos e que conta com um dos melhores jogadores da atualidade. Não estão errados. No entanto, quando li estas declarações pela primeira vez, tive uma mini-crise existencial. 


 


Eu desabituara-me a pensar assim há muitos anos. Já não assumia com todas as letras que queria o título. Não me atrevia a sonhar abertamente com isso. Habituara-me a pensar um jogo de cada vez e, de resto, o antigo Selecionador Paulo Bento também pensava assim (ao definir sempre como primeiro objetivo passar a fase de grupos). Era a opção segura. Sejamos realistas, todos os campeonatos de seleções têm acabado da mesma forma, mesmo que, nalguns deles, os desempenhos até tenham sido bons. Na altura destas primeiras declarações, aliás, a Qualificação para este Europeu ainda ia a meio e as últimas exibições da Equipa de Todos Nós não tinham sido brilhantes, mesmo tendo resultado em vitórias. O fraco desempenho no Mundial 2014 ocorrera menos de um ano antes, ainda estava fresco na memória. Eu não estava preparada para ouvir Fernando Santos falar assim, não estava preparada para voltar a acreditar desta forma. Ainda hoje, uma parte de mim pensa que estamos a sonhar um bocadinho alto de mais.


 


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A minha irmã resumiu bem a situação, há uns tempos. Vimos uma notícia sobre aquele que será o quartel-general português durante o Europeu, em França. Fernando Santos disse que tinha o centro de estágios reservado até dia 11 de julho, para Portugal poder jogar a final do Euro 2016 e festejar no dia seguinte. Em resposta a isto, a minha irmã disse qualquer coisa como:


 


- Bem, este 'tá chei'da fé!


 


É uma expressão que ela tem usado várias vezes ultimamente e que eu adoro.


 


Depois dessa entrevista há cerca de um ano, Fernando Santos foi reiterando várias vezes esta ambição de ganhar o Europeu e eu fui-me habituando à ideia, abrindo-me à possibilidade. O facto de termos concluído a Qualificação com os melhores número de sempre ajudou. Não garante nada, é certo, mas tal como disse na altura sete vitórias seguidas em jogos oficiais não são desprezáveis em circunstância alguma. Ao mesmo tempo, tem estado a surgir uma nova geração de jogadores, muito promissora - destaque óbvio para a equipa que chegou à final do Europeu de sub-21. O jogo com a Bélgica deixou bons sinais relativamente ao momento da Seleção, de resto. Em termos de qualidade do plantel, considero, portanto, que estamos um pouco melhor fornecidos que há dois anos, no Mundial 2014 - mas já será um enorme progresso se os vinte e três Escolhidos não se lesionarem.


 


Adicionalmente, por norma os Europeus costumam correr melhor a Portugal do que os Mundiais. Conseguimos sempre passar a fase de grupos do Euro. Além disso, em três edições do campeonato chegámos às meias-finais (em 1984, em 2000, em 2012) e, claro, em 2004 chegámos a final. A explicação possível é o facto de os jogadores e respetivas seleções nos serem mais familiares e, claro, por o clima não ser tão agreste como noutros sítios - por exemplo, o Brasil.


 


nani e ronaldo.jpg


 


Por fim, o facto de termos Cristiano Ronaldo é um dos maiores catalisadores desta nossa ambição. Como toda a gente sabe, ele já ganhou tudo, excepto um título pela Equipa de Todos Nós. Não deixará de ser inglório se ele terminar uma carreira, já de si extraordinária, mas com esse vazio. E visto que ele já passou a barreira dos 30 anos, está poderá ser a última oportunidade dele (embora eu tenha pensado mais ou menos o mesmo na altura do Mundial 2014).


 


Por isso, sim. Pela primeira vez em anos, neste Europeu não vou pensar apenas jogo a jogo. Pela primeira vez em anos, estou a assumir com todas as letras que quero Portugal campeão europeu. O título é o sonho, sempre o foi. Um sonho é algo irreal, fantasioso. O que o Selecionador fez - ao deixar o objetivo bem claro perante os jogadores no primeiro dia em que trabalhou com eles, ao recordar-lhes esse objetivo em todas as concentrações - foi transformá-lo numa ambição, num objetivo, em algo real, concreto e... assustador. Porque, ao se tornar real, torna-se também falível.


 


Espero que o Selecionador tenha noção do que nos está a pedir. Como escrevi antes, não é fácil voltar a acreditar depois do que aconteceu em 2014 - eu demorei meses. Fernando Santos não pode pedir-nos para voltarmos a acreditar se, depois, a Seleção fizer um Europeu para esquecer - assim vai doer ainda mais. Ele e os Marmanjos têm a responsabilidade de levarem essas ambições para o campo e jogarem para torná-las realidade. Não me quero arrepender de voltar a acreditar. 


 


fernando santos indica.jpg


  


Ainda não sei de que forma estas ambições vão influenciar as comunicações com a Imprensa durante o estágio, se os Marmanjos vão dizer, preto no branco, que estão a trabalhar para ganhar o Europeu. Ainda não sabemos quem vai ao Euro, sequer (vamos descobrir hoje), nem se esse grupo terá o que é preciso para chegar lá (os particulares servirão para descobri-lo, com as devidas atenuantes). No entanto, vou assumir que Fernando Santos está a ser sincero, que sabe o que está a fazer e que os jogadores partilham a mesma ambição. Se assim for, poderemos todos - jogadores, Selecionador, restante equipa técnica, adeptos - partir para este Europeu cheios d'a fé.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Especial Aniversário: Top 10 Jogos da Seleção Portuguesa #2

Segunda parte do meu top 10 de jogos da Seleção. Primeira parte aqui.


 


4) Portugal x Dinamarca (2012)


 



 


Este é outro jogo de que estou sempre a falar. Para começar, foi o primeiro jogo em anos que, na minha opinião, esteve ao nível dos grandes jogos da história da Equipa de Todos Nós em termos de epicidade. Foi um dos jogos em que gritei mais vezes ao longo dos noventa minutos. Foi o jogo em que assustei a minha irmã com a minha reação ao golo de Hélder Postiga. Foi o jogo em que nos deixámos empatar, ficando em risco de… bem, aquilo que acabaria por acontecer no Mundial 2014. Foi o jogo em que Silvestre Varela saltou do banco, qual representante do Instituto de Socorro a Náufragos (ainda hoje me faz rir…), e nos salvou a todos a poucos minutos do fim. Foi esse o golo que eu e a minha irmãzinha celebrámos à gritaria durante pelo menos cinco minutos e que a Seleção celebrou atirando-se em peso (jogadores e técnicos incluídos) para cima do Varela. Foi uma montanha-russa de emoções que eu nunca esquecerei.


 


3) Portugal x Holanda (2004)


 


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O pódio deste top é composto exclusivamente por jogos do Euro 2004. Este campeonato foi, até agora, o melhor campeonato futebolístico de que me recordo. Para começar, realizou-se cá em Portugal, o que só de si foi excitante (pena é os envelopes debaixo da mesa e a má gestão dos estádios todos…). Em segundo, o povo uniu-se em torno da Seleção de uma maneira nunca antes vista: as bandeiras nas janelas, os cortejos de adeptos seguindo a Seleção para onde quer que fosse, os festejos nas ruas após as grandes vitórias, a eterna Força da Nelly Furtado, entre muitas outras coisas. No dia da final, eu e a minha família fomos até Alcochete para ver o autocarro passar, no caminho para a Luz. O único protagonista que me lembro ao certo de vislumbrar, quando o autocarro finalmente passou, é o Simão. Talvez tenha visto também o guarda-redes Quim (que é feito dele?). O meu irmão na altura disse que viu Luiz Felipe Scolari.


 


Há uns anos ouvi Manuel José (penso que era ele) dizendo, num qualquer programa de comentário/debate desportivo, que não gostara de todo esse “circo”, que este terá sido a causa da derrota na final. Sinceramente, eu duvido. Aquele “circo” todo não era mais do que uma versão alargada do que acontece nos estádios: milhares de adeptos marcando presença, vestidos a rigor, aplaudindo a sua equipa. Desde quando é que isso é prejudicial? Além do mais, conforme já escrevi antes, o futebol é acima de tudo um entretenimento, um espetáculo, é para ser vivido com paixão.


 


Por isso não, não me arrependo de ter ido a Alcochete ver a Equipa de Todos Nós, tal como nunca me arrependi de nenhuma manifestação de apoio que seja. Foi, aliás, no Euro 2004 que aprendi o que é verdadeiramente ser adepta da Seleção, todos os aspetos do cargo: a euforia e a felicidade das grandes vitórias, o desgosto e a frustração das derrotas. Lições que permanecem até hoje.


 


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Regressando ao top, em terceiro lugar temos o jogo que nos colocou na nossa primeira – e até agora única – final. Lembro-me de ver o golo do Cristiano Ronaldo (o seu segundo pela Turma das Quinas) a partir da televisão da minha cozinha. Não me lembro tão bem de ver o golo do Maniche em direto, mas há dois anos, no programa Heróis do Mundial da RTPN (tristíssima por não termos um programa equivalente para o Europeu), recordei a forma possante, majestosa, como ele corria pelo campo.


 


No livro “Os alegres dias do país triste”, de Afonso de Melo – o mesmo autor d‘“A Pátria Fomos Nós” – vêm algumas palavras de Maniche sobre este golo:


 


 - “Que aconteceu? Estavas possesso?


 


- Olha, o que digo é que foi completamente intencional. E isso nota-se pela forma como inclino o corpo para a frente. A minha vontade era marcar golo, mas também admito que foi mais bonito do que aquilo que eu esperava.


 


- Recebes um passe do Ronaldo.


 


- Ele toca num canto de forma muito rápida e eu chutei com muita força e colocado. Também beneficiei do facto de o Davids ter deixado aquele poste junto ao qual se posicionava nos cantos. Foi aí que a bola entrou.”


 


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Também me recordo do auto-golo do Jorge Andrade – um belo chapéu na baliza errada – e de o Ricardo o consolar com uma palmada leve no rabo (?). Lembro-me de dizer à minha irmãzinha – que na altura tinha seis anos – que aquilo era o Jorge Andrade a levar tau-tau por se ter enganado na baliza.


 


No entanto, a imagem mais marcante daquele jogo foi o abraço entre Rui Costa e Luís Figo, no fim do jogo (não sei se o segundo não estaria a chorar). Afinal, naquele dia, treze anos antes, os dois tinham conquistado o Mundial de sub-20 e, agora, levavam a Seleção A à sua primeira final… e em casa! 


 


2) Portugal x Inglaterra (2004)


 



  


Tal como aconteceria no Mundial 2006, o jogo dos quartos-de-final do Euro 2004 foi o mais emocionante de toda a prova. Para além de eu ter um gosto especial por reviravoltas, por marcadores que oscilam rapidamente entre favoráveis e desfavoráveis, este jogo esteve cheio de momentos inesquecíveis, conforme explicarei a seguir.


 


Lembro-me de ter visto a primeira parte no instituto de línguas que frequentava na altura com um dos meus professores, curiosamente de nacionalidade inglesa. A segunda parte e o prolongamento vi em casa, no quarto do meu irmão. O jogo não começou bem para nós, os ingleses marcaram cedo e o resultado manteve-se assim até mais ou menos aos oitenta minutos. Quando se fala deste jogo, fala-se muito de Ricardo, claro, e mesmo de Rui Costa. Não se fala muito de Hélder Postiga – claro – apesar de ele ter sido fulcral para levar o jogo a prolongamento. Lembro-me da carranca de Luís Figo quando foi obrigado a dar o lugar a Postiga e de, alegadamente, ele ter ido logo para o balneário. Tal atitude daria polémica nos dias que se seguiram. Lembro-me de ouvir Figo dizer “Penso que não cometi nenhum crime” numa Conferência de Imprensa. Lembro-me também de o Selecionador Luiz Felipe Scolari ter dito que Figo estivera no balneário a rezar à Nossa Senhora de Fátima.


 


Por outro lado, quando pesquisei sobre este incidente, na preparação desta entrada, descobri mais esta declaração de Scolari: “[Figo] estava muito participativo e, segundo me contaram, numa jogada do Cristiano Ronaldo, no prolongamento, dizia 'vai miúdo'" Esta imagem derrete-me o coração.


 



  


Regressando a Postiga, tal como disse antes, foi ele quem repôs a igualdade, cabeceando após um centro perfeito de Simão, esticando o tempo de jogo para os cento e vinte minutos. Mais tarde, Postiga destacar-se-ia no jogo por, no desempate por penálties, ter batido o seu à Panenka – se a brincadeira tivesse corrido mal, o jogo poderia ter terminado de maneira diferente e o pobre Hélder seria ainda mais vilanizado do que é hoje. Mais uma vez, no livro “Os alegres dias do país triste”, ele falou da gracinha: “Saiu… Agora, vendo as coisas à distância, não repetia. Foi um ato de loucura, de inconsciência. Ficará para sempre na minha memória. Algo próprio da idade. Era um miúdo! Mas, atenção. Fazia aquilo muitas vezes nos treinos. Não devia era ter feito num momento daquela importância.”


 


Pois não. Segundo o que ouvi no programa Heróis do Mundial, quando foi do jogo com a Inglaterra em 2006, alguém foi dizer ao Hélder, aquando dos penálties:


 


- Postiga, tem juízo, à Panenka não!


 


Mas regressemos a outros heróis deste jogo. Como Rui Costa, que saltara do banco e deu um tiro espetacular, no prolongamento, colocando-nos pela primeira vez à frente no marcador (nunca me vou esquecer da cara de aziado de Sven-Göran Erikson, no banco inglês…). Não durou muito, contudo: cinco minutos mais tarde, Frank Lampard repunha a igualdade.


 


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Chegamos ao Ricardo, claro. Não se fala deste jogo sem falar do Ricardo, do penálti que ele quis defender sem luvas. Sobre este gesto inusitado ele disse, no mesmo livro referido acima: “Já disse várias vezes que foi instintivo. Vi que era Vassel a marcar e ele era o único cuja forma de chutar não tinha estudado em DVD. Pensei que era preciso fazer algo. Olhei para as minhas mãos e pensei: vai ser sem luvas! Mais tarde fui colega dele no Leicester, em Inglaterra (clube que, por sinal, está agora em alta por se terem sagrados campeões ingleses) e ele confessou-me que ficou intrigado. Que até perguntou ao árbitro se eu podia fazer aquilo.”


 


Também me recordo de ver Eusébio, de toalhinha branca no pulso, gritando para o guarda-redes. Durante algum tempo não soube ao certo o que gritara o Pantera Negra. Ouvi várias versões. Assumindo que o livro que temos referido fala verdade, ele gritava:


 


- Não te mexas! Não te mexas!


 


O que quer que tenha sido resultou, pois Ricardo defendeu. Depois desse penálti, quando foi a vez de marcar à Inglaterra, Ricardo quis executar e fê-lo sem hipótese de defesa. Muitas imagens me ficaram na retina desses momentos. O preciso instante em que a bola entra e o resto da Seleção desata a correm em direção ao Ricardo, atirando-se para cima dele. O Eusébio beijando o relvado da sua amada Luz. Ricardo nos braços do Selecionador. Finalmente, Scolari com a bandeira brasileira numa mão, a portuguesa na outra e encostando ambas ao coração, antes de recolher aos balneários.


 


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Eu tinha apenas catorze anos na altura do Euro 2004, na altura destes ou de outros jogos. Era demasiado jovem, demasiado inocente para compreender na totalidade o quão raro, o quão grandioso era o que estava a acontecer, o que a nossa Seleção estava a fazer, a maneira como o povo reagia a estes feitos. Só agora, passados estes anos todos, é que começo a compreender que isto que descrevi acima é a matéria da qual são feitas as lendas.


 


1) Portugal x Espanha (2004)


 



  


Tive alguma dificuldade em escolher os meus dez jogos favoritos e talvez ainda mais em definir a ordem de preferência. No entanto, não tive dúvidas nenhumas relativamente ao primeiro lugar. O Portugal x Espanha do Euro 2004 pode não ser o jogo mais emocionante ou tecnicamente melhor conseguido desta lista, mas é especial por vários motivos. Primeiro, este foi o jogo em que Cristiano Ronaldo se estreou a titular pela Seleção. Segundo, foi o primeiro jogo a que assisti ao vivo, no Estádio de Alvalade, com os meus pais e o meu irmão, algo que me marcou profundamente. Lembro-me da sensação de irrealidade, ao ver com os meus próprios olhos coisas que só via através de um ecrã de televisão – só o facto de não ouvir os comentadores era suficientemente estranho. Lembro-me de, a certa altura, ver pardais pousando no relvado durante o jogo e de ter achado graça na altura: uma coisa tão prosaica como pardais num palco onde lendas estavam sendo escritas!


 


Devo de resto dizer que os nossos amigos espanhóis criaram um ambiente amigavelmente provocador. Ainda antes de entrarmos no estádio, uns espanhóis meteram-se connosco, a propósito da camisola de Figo que o meu irmão vestia. Figo na altura ainda jogava no Real Madrid e os adeptos espanhóis tentaram provocar-nos, dizendo que Figo era espanhol. A minha mãe deu-lhes uma resposta à altura, em espanhol macarrónico.


 


- Figo no es español. Sus pesetas é que son españolas.


 


No estádio, apesar de termos chegado cerca de duas horas antes, conforme aconselhado pelas autoridades, já lá estavam imensos espanhóis, fazendo barulho. Nós, portugas, não íamos deixá-los sem resposta. Acho que chegámos a gritar “E quem não salta é espanhol, olé! Olé!”. Resultado: ainda o jogo não tinha começado e o meu irmão já estava sem voz.


 


Como estávamos mais para o lado da baliza sul, não conseguimos ver o golo de Nuno Gomes (eu pelo menos não me lembro de vê-lo), mas os festejos na bancada foram explosivos. Recordo-me de vislumbrar, por entre os braços erguidos, a Seleção toda abraçando Nuno Gomes (que depois seria rebatizado de Nuno Álvares Pereira Gomes). Os adeptos sentados à nossa frente fizeram questão de se virar para trás para trocar high-fives connosco – algo que tornariam a fazer no fim do jogo, quando a vitória já estava garantida.


 


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Nunca tínhamos ganho à Espanha em jogos oficiais antes daquele encontro e não voltaríamos a ganhar depois deste. No entanto, na minha opinião, mais do que qualquer outro jogo contra nuestros hermanos, aquele era o jogo em que tínhamos de vencer. Aquele era o meu primeiro jogo, era o nosso Europeu! A história não podia terminar na fase de grupos! (já foi suficientemente mau termos deitado tudo a perder na final…)


 


Digo-o com toda a franqueza: se não tivéssemos vencido este jogo, eu não estaria aqui, a escrever neste blogue, não seria a pessoa que sou hoje. Foi com aquela vitória que começou uma devoção que se mantém até hoje. Por ter sido o início da série brilhante neste Europeu, por ter sido o meu primeiro jogo de futebol ao vivo, algo que se tornaria uma das minhas experiências favoritas – mesmo os jogos do Sporting a que a minha irmã me leva. O Portugal x Espanha do Euro 2004 pode não ter sido o jogo mais brilhante ou emocionante, mas foi o início da minha paixão pela Equipa de Todos Nós. Por esse motivo, para mim será sempre o melhor jogo de todos os tempos.


 


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Dá para acreditar que já vamos em oito anos de “O Meu Clube é a Seleção”? A mim custa-me um bocadinho. Na verdade, este blogue acaba por receber menos atenção do que o meu outro blogue, o Álbum de Testamentos. Só inaugurei este último depois do Euro 2012, mas sendo um blogue mais genérico, sem um tema definido, posso escrever nele com mais frequência. Por sua vez, a Seleção joga em intervalos cada vez mais espaçados, pelo que este blogue fica muitas vezes inativo durante meses. Resultado, o Álbum já quase ultrapassa “o Meu Clube é a Seleção” em número de visualizações.


 


Por outro lado, tenho a página do Facebook, que atualizo quase todos os dias, o que sempre compensa a inatividade do blogue. De qualquer forma, agora que vem aí o Euro 2016 e vou deixar o Álbum um bocadinho mais de lado, talvez a tendência se inverta.


 


Conforme refiro de vez em quando aqui no blogue, o tempo passa mas o gozo de escrever sobre a Seleção não diminui. Tal como já referi antes, o futebol é uma história que nunca acaba, tem sempre novas personagens, novos enredos, novas reviravoltas. Eu sou cada vez mais apaixonada pela modalidade em si, já não desdenho assim tanto do futebol de clubes (não são os clubes em si que são corruptos, são as pessoas), mas continuo a não amar equipa nenhuma, só a Seleção. Foi para jogos como os que apresentei nesta lista que criei este blogue: para poder escrever sobre eles, para contribuir para a sua imortalização, para poder falar sobre eles aos meus filhos e netos. Sempre assumi que chegaria a uma altura em que deixaria de ter tempo para este blogue e para a respetiva página de Facebook, mas até agora essa altura ainda não chegou e, em princípio, tão depressa não chegará. Vamos continuar a ter “O Meu Clube é a Seleção!” por muitos anos ainda, com sorte.


 


E agora que já tirámos estas duas entradas para falar do passado, nas próximas falaremos do presente e do futuro mais próximo. Estamos a cinco dias do Anúncio dos Convocados para o Euro 2016!


 

Especial Aniversário: Top 10 Jogos da Seleção Portuguesa #2

Segunda parte do meu top 10 de jogos da Seleção. Primeira parte aqui.


 


4) Portugal x Dinamarca (2012)


 



 


Este é outro jogo de que estou sempre a falar. Para começar, foi o primeiro jogo em anos que, na minha opinião, esteve ao nível dos grandes jogos da história da Equipa de Todos Nós em termos de epicidade. Foi um dos jogos em que gritei mais vezes ao longo dos noventa minutos. Foi o jogo em que assustei a minha irmã com a minha reação ao golo de Hélder Postiga. Foi o jogo em que nos deixámos empatar, ficando em risco de… bem, aquilo que acabaria por acontecer no Mundial 2014. Foi o jogo em que Silvestre Varela saltou do banco, qual representante do Instituto de Socorro a Náufragos (ainda hoje me faz rir…), e nos salvou a todos a poucos minutos do fim. Foi esse o golo que eu e a minha irmãzinha celebrámos à gritaria durante pelo menos cinco minutos e que a Seleção celebrou atirando-se em peso (jogadores e técnicos incluídos) para cima do Varela. Foi uma montanha-russa de emoções que eu nunca esquecerei.


 


3) Portugal x Holanda (2004)


 


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O pódio deste top é composto exclusivamente por jogos do Euro 2004. Este campeonato foi, até agora, o melhor campeonato futebolístico de que me recordo. Para começar, realizou-se cá em Portugal, o que só de si foi excitante (pena é os envelopes debaixo da mesa e a má gestão dos estádios todos…). Em segundo, o povo uniu-se em torno da Seleção de uma maneira nunca antes vista: as bandeiras nas janelas, os cortejos de adeptos seguindo a Seleção para onde quer que fosse, os festejos nas ruas após as grandes vitórias, a eterna Força da Nelly Furtado, entre muitas outras coisas. No dia da final, eu e a minha família fomos até Alcochete para ver o autocarro passar, no caminho para a Luz. O único protagonista que me lembro ao certo de vislumbrar, quando o autocarro finalmente passou, é o Simão. Talvez tenha visto também o guarda-redes Quim (que é feito dele?). O meu irmão na altura disse que viu Luiz Felipe Scolari.


 


Há uns anos ouvi Manuel José (penso que era ele) dizendo, num qualquer programa de comentário/debate desportivo, que não gostara de todo esse “circo”, que este terá sido a causa da derrota na final. Sinceramente, eu duvido. Aquele “circo” todo não era mais do que uma versão alargada do que acontece nos estádios: milhares de adeptos marcando presença, vestidos a rigor, aplaudindo a sua equipa. Desde quando é que isso é prejudicial? Além do mais, conforme já escrevi antes, o futebol é acima de tudo um entretenimento, um espetáculo, é para ser vivido com paixão.


 


Por isso não, não me arrependo de ter ido a Alcochete ver a Equipa de Todos Nós, tal como nunca me arrependi de nenhuma manifestação de apoio que seja. Foi, aliás, no Euro 2004 que aprendi o que é verdadeiramente ser adepta da Seleção, todos os aspetos do cargo: a euforia e a felicidade das grandes vitórias, o desgosto e a frustração das derrotas. Lições que permanecem até hoje.


 


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Regressando ao top, em terceiro lugar temos o jogo que nos colocou na nossa primeira – e até agora única – final. Lembro-me de ver o golo do Cristiano Ronaldo (o seu segundo pela Turma das Quinas) a partir da televisão da minha cozinha. Não me lembro tão bem de ver o golo do Maniche em direto, mas há dois anos, no programa Heróis do Mundial da RTPN (tristíssima por não termos um programa equivalente para o Europeu), recordei a forma possante, majestosa, como ele corria pelo campo.


 


No livro “Os alegres dias do país triste”, de Afonso de Melo – o mesmo autor d‘“A Pátria Fomos Nós” – vêm algumas palavras de Maniche sobre este golo:


 


 - “Que aconteceu? Estavas possesso?


 


- Olha, o que digo é que foi completamente intencional. E isso nota-se pela forma como inclino o corpo para a frente. A minha vontade era marcar golo, mas também admito que foi mais bonito do que aquilo que eu esperava.


 


- Recebes um passe do Ronaldo.


 


- Ele toca num canto de forma muito rápida e eu chutei com muita força e colocado. Também beneficiei do facto de o Davids ter deixado aquele poste junto ao qual se posicionava nos cantos. Foi aí que a bola entrou.”


 


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Também me recordo do auto-golo do Jorge Andrade – um belo chapéu na baliza errada – e de o Ricardo o consolar com uma palmada leve no rabo (?). Lembro-me de dizer à minha irmãzinha – que na altura tinha seis anos – que aquilo era o Jorge Andrade a levar tau-tau por se ter enganado na baliza.


 


No entanto, a imagem mais marcante daquele jogo foi o abraço entre Rui Costa e Luís Figo, no fim do jogo (não sei se o segundo não estaria a chorar). Afinal, naquele dia, treze anos antes, os dois tinham conquistado o Mundial de sub-20 e, agora, levavam a Seleção A à sua primeira final… e em casa! 


 


2) Portugal x Inglaterra (2004)


 



  


Tal como aconteceria no Mundial 2006, o jogo dos quartos-de-final do Euro 2004 foi o mais emocionante de toda a prova. Para além de eu ter um gosto especial por reviravoltas, por marcadores que oscilam rapidamente entre favoráveis e desfavoráveis, este jogo esteve cheio de momentos inesquecíveis, conforme explicarei a seguir.


 


Lembro-me de ter visto a primeira parte no instituto de línguas que frequentava na altura com um dos meus professores, curiosamente de nacionalidade inglesa. A segunda parte e o prolongamento vi em casa, no quarto do meu irmão. O jogo não começou bem para nós, os ingleses marcaram cedo e o resultado manteve-se assim até mais ou menos aos oitenta minutos. Quando se fala deste jogo, fala-se muito de Ricardo, claro, e mesmo de Rui Costa. Não se fala muito de Hélder Postiga – claro – apesar de ele ter sido fulcral para levar o jogo a prolongamento. Lembro-me da carranca de Luís Figo quando foi obrigado a dar o lugar a Postiga e de, alegadamente, ele ter ido logo para o balneário. Tal atitude daria polémica nos dias que se seguiram. Lembro-me de ouvir Figo dizer “Penso que não cometi nenhum crime” numa Conferência de Imprensa. Lembro-me também de o Selecionador Luiz Felipe Scolari ter dito que Figo estivera no balneário a rezar à Nossa Senhora de Fátima.


 


Por outro lado, quando pesquisei sobre este incidente, na preparação desta entrada, descobri mais esta declaração de Scolari: “[Figo] estava muito participativo e, segundo me contaram, numa jogada do Cristiano Ronaldo, no prolongamento, dizia 'vai miúdo'" Esta imagem derrete-me o coração.


 



  


Regressando a Postiga, tal como disse antes, foi ele quem repôs a igualdade, cabeceando após um centro perfeito de Simão, esticando o tempo de jogo para os cento e vinte minutos. Mais tarde, Postiga destacar-se-ia no jogo por, no desempate por penálties, ter batido o seu à Panenka – se a brincadeira tivesse corrido mal, o jogo poderia ter terminado de maneira diferente e o pobre Hélder seria ainda mais vilanizado do que é hoje. Mais uma vez, no livro “Os alegres dias do país triste”, ele falou da gracinha: “Saiu… Agora, vendo as coisas à distância, não repetia. Foi um ato de loucura, de inconsciência. Ficará para sempre na minha memória. Algo próprio da idade. Era um miúdo! Mas, atenção. Fazia aquilo muitas vezes nos treinos. Não devia era ter feito num momento daquela importância.”


 


Pois não. Segundo o que ouvi no programa Heróis do Mundial, quando foi do jogo com a Inglaterra em 2006, alguém foi dizer ao Hélder, aquando dos penálties:


 


- Postiga, tem juízo, à Panenka não!


 


Mas regressemos a outros heróis deste jogo. Como Rui Costa, que saltara do banco e deu um tiro espetacular, no prolongamento, colocando-nos pela primeira vez à frente no marcador (nunca me vou esquecer da cara de aziado de Sven-Göran Erikson, no banco inglês…). Não durou muito, contudo: cinco minutos mais tarde, Frank Lampard repunha a igualdade.


 


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Chegamos ao Ricardo, claro. Não se fala deste jogo sem falar do Ricardo, do penálti que ele quis defender sem luvas. Sobre este gesto inusitado ele disse, no mesmo livro referido acima: “Já disse várias vezes que foi instintivo. Vi que era Vassel a marcar e ele era o único cuja forma de chutar não tinha estudado em DVD. Pensei que era preciso fazer algo. Olhei para as minhas mãos e pensei: vai ser sem luvas! Mais tarde fui colega dele no Leicester, em Inglaterra (clube que, por sinal, está agora em alta por se terem sagrados campeões ingleses) e ele confessou-me que ficou intrigado. Que até perguntou ao árbitro se eu podia fazer aquilo.”


 


Também me recordo de ver Eusébio, de toalhinha branca no pulso, gritando para o guarda-redes. Durante algum tempo não soube ao certo o que gritara o Pantera Negra. Ouvi várias versões. Assumindo que o livro que temos referido fala verdade, ele gritava:


 


- Não te mexas! Não te mexas!


 


O que quer que tenha sido resultou, pois Ricardo defendeu. Depois desse penálti, quando foi a vez de marcar à Inglaterra, Ricardo quis executar e fê-lo sem hipótese de defesa. Muitas imagens me ficaram na retina desses momentos. O preciso instante em que a bola entra e o resto da Seleção desata a correm em direção ao Ricardo, atirando-se para cima dele. O Eusébio beijando o relvado da sua amada Luz. Ricardo nos braços do Selecionador. Finalmente, Scolari com a bandeira brasileira numa mão, a portuguesa na outra e encostando ambas ao coração, antes de recolher aos balneários.


 


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Eu tinha apenas catorze anos na altura do Euro 2004, na altura destes ou de outros jogos. Era demasiado jovem, demasiado inocente para compreender na totalidade o quão raro, o quão grandioso era o que estava a acontecer, o que a nossa Seleção estava a fazer, a maneira como o povo reagia a estes feitos. Só agora, passados estes anos todos, é que começo a compreender que isto que descrevi acima é a matéria da qual são feitas as lendas.


 


1) Portugal x Espanha (2004)


 



  


Tive alguma dificuldade em escolher os meus dez jogos favoritos e talvez ainda mais em definir a ordem de preferência. No entanto, não tive dúvidas nenhumas relativamente ao primeiro lugar. O Portugal x Espanha do Euro 2004 pode não ser o jogo mais emocionante ou tecnicamente melhor conseguido desta lista, mas é especial por vários motivos. Primeiro, este foi o jogo em que Cristiano Ronaldo se estreou a titular pela Seleção. Segundo, foi o primeiro jogo a que assisti ao vivo, no Estádio de Alvalade, com os meus pais e o meu irmão, algo que me marcou profundamente. Lembro-me da sensação de irrealidade, ao ver com os meus próprios olhos coisas que só via através de um ecrã de televisão – só o facto de não ouvir os comentadores era suficientemente estranho. Lembro-me de, a certa altura, ver pardais pousando no relvado durante o jogo e de ter achado graça na altura: uma coisa tão prosaica como pardais num palco onde lendas estavam sendo escritas!


 


Devo de resto dizer que os nossos amigos espanhóis criaram um ambiente amigavelmente provocador. Ainda antes de entrarmos no estádio, uns espanhóis meteram-se connosco, a propósito da camisola de Figo que o meu irmão vestia. Figo na altura ainda jogava no Real Madrid e os adeptos espanhóis tentaram provocar-nos, dizendo que Figo era espanhol. A minha mãe deu-lhes uma resposta à altura, em espanhol macarrónico.


 


- Figo no es español. Sus pesetas é que son españolas.


 


No estádio, apesar de termos chegado cerca de duas horas antes, conforme aconselhado pelas autoridades, já lá estavam imensos espanhóis, fazendo barulho. Nós, portugas, não íamos deixá-los sem resposta. Acho que chegámos a gritar “E quem não salta é espanhol, olé! Olé!”. Resultado: ainda o jogo não tinha começado e o meu irmão já estava sem voz.


 


Como estávamos mais para o lado da baliza sul, não conseguimos ver o golo de Nuno Gomes (eu pelo menos não me lembro de vê-lo), mas os festejos na bancada foram explosivos. Recordo-me de vislumbrar, por entre os braços erguidos, a Seleção toda abraçando Nuno Gomes (que depois seria rebatizado de Nuno Álvares Pereira Gomes). Os adeptos sentados à nossa frente fizeram questão de se virar para trás para trocar high-fives connosco – algo que tornariam a fazer no fim do jogo, quando a vitória já estava garantida.


 


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Nunca tínhamos ganho à Espanha em jogos oficiais antes daquele encontro e não voltaríamos a ganhar depois deste. No entanto, na minha opinião, mais do que qualquer outro jogo contra nuestros hermanos, aquele era o jogo em que tínhamos de vencer. Aquele era o meu primeiro jogo, era o nosso Europeu! A história não podia terminar na fase de grupos! (já foi suficientemente mau termos deitado tudo a perder na final…)


 


Digo-o com toda a franqueza: se não tivéssemos vencido este jogo, eu não estaria aqui, a escrever neste blogue, não seria a pessoa que sou hoje. Foi com aquela vitória que começou uma devoção que se mantém até hoje. Por ter sido o início da série brilhante neste Europeu, por ter sido o meu primeiro jogo de futebol ao vivo, algo que se tornaria uma das minhas experiências favoritas – mesmo os jogos do Sporting a que a minha irmã me leva. O Portugal x Espanha do Euro 2004 pode não ter sido o jogo mais brilhante ou emocionante, mas foi o início da minha paixão pela Equipa de Todos Nós. Por esse motivo, para mim será sempre o melhor jogo de todos os tempos.


 


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Dá para acreditar que já vamos em oito anos de “O Meu Clube é a Seleção”? A mim custa-me um bocadinho. Na verdade, este blogue acaba por receber menos atenção do que o meu outro blogue, o Álbum de Testamentos. Só inaugurei este último depois do Euro 2012, mas sendo um blogue mais genérico, sem um tema definido, posso escrever nele com mais frequência. Por sua vez, a Seleção joga em intervalos cada vez mais espaçados, pelo que este blogue fica muitas vezes inativo durante meses. Resultado, o Álbum já quase ultrapassa “o Meu Clube é a Seleção” em número de visualizações.


 


Por outro lado, tenho a página do Facebook, que atualizo quase todos os dias, o que sempre compensa a inatividade do blogue. De qualquer forma, agora que vem aí o Euro 2016 e vou deixar o Álbum um bocadinho mais de lado, talvez a tendência se inverta.


 


Conforme refiro de vez em quando aqui no blogue, o tempo passa mas o gozo de escrever sobre a Seleção não diminui. Tal como já referi antes, o futebol é uma história que nunca acaba, tem sempre novas personagens, novos enredos, novas reviravoltas. Eu sou cada vez mais apaixonada pela modalidade em si, já não desdenho assim tanto do futebol de clubes (não são os clubes em si que são corruptos, são as pessoas), mas continuo a não amar equipa nenhuma, só a Seleção. Foi para jogos como os que apresentei nesta lista que criei este blogue: para poder escrever sobre eles, para contribuir para a sua imortalização, para poder falar sobre eles aos meus filhos e netos. Sempre assumi que chegaria a uma altura em que deixaria de ter tempo para este blogue e para a respetiva página de Facebook, mas até agora essa altura ainda não chegou e, em princípio, tão depressa não chegará. Vamos continuar a ter “O Meu Clube é a Seleção!” por muitos anos ainda, com sorte.


 


E agora que já tirámos estas duas entradas para falar do passado, nas próximas falaremos do presente e do futuro mais próximo. Estamos a cinco dias do Anúncio dos Convocados para o Euro 2016!


 

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